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O objetivo do Espiritismo não é produzir cartas psicografadas


Wellington Balbo 

Considero perfeitamente natural a busca por mensagens dos entes queridos que nos precederam  na grande viagem de retorno ao mundos dos Espíritos. Quem ama quer saber como, onde e com quem está. E como a interação entre as vidas, a de lá e a de cá é constante, claro que se torna possível, por via mediúnica, a comunicação com nossos entes queridos.

Portanto, basta que algum afeto desencarne para as buscas por notícias tornarem-se objeto de cogitação por parte dos profitentes das mais diversas religiões. Normal que procurem o centro espírita, afinal, somos nós os defensores e divulgadores da imortalidade da alma. Mesmo pessoas mais intransigentes acabam, não raro, curvando-se quando experimentam a dor da morte em suas famílias e vão ao centro. É que enquanto as outras religiões param no túmulo o Espiritismo adentra esse universo do além.

Em face disto tenho visto e recebido muita gente que chega ao centro espírita ávida por notícias de seus familiares. Entretanto, como dissemos há pouco, embora seja possível a comunicação vale salientar que isto não é a principal função do Espiritismo. Então, não vai aqui nenhuma crítica a médiuns que se dedicam a este belo trabalho que, claro, é válido e importante, porém, não é o “prato principal do Espiritismo”.

Aliás, assim como não é o prato principal tantas outras coisas, como, por exemplos, o passe, o trabalho na mediunidade, a promoção social. É preciso distinguir o importante do principal. A função principal do Espiritismo não é produzir cartas psicografadas ou contatos com os entes queridos que já se foram. Isso ocorre por acréscimo da misericórdia de Deus.


A função principal do Espiritismo não é aplicar passes. Isso ocorre para mostrar que há ferramentas que nos possibilitam um processo de reernegização. A função principal do Espiritismo não é abrir campo para trabalharmos na mediunidade. Isso  ocorre para dar-nos emprego no campo do bem. Em suma, a função principal do Espiritismo é promover a educação moral do indivíduo, educar a mente humana e sensibilizar o seu coração direcionando-o à caridade para consigo mesmo e depois ao próximo.

Trabalhador Espírita


Trabalhador espírita, ah se soubesse a luz que geras em torno de ti em cada tarefa que conclui na senda do Pai! Concentra-te no ideal e receberás a recompensa além da sua visão. Mantém sua postura diante dos atrozes do mundo que por hora enviam-lhe ondas de distúrbios maléficos.

Cria em ti escudo de fé para que rebata o que lhe é dirigido pelo pensamento sofredor, a paz do teu coração ninguém pode roubar. Prepara tua mente ante ao trabalho, evitas sempre que possível a conversação inútil e usa do tempo disponível para meditação e contato com as esferas superiores.

Substitua a futilidade pela utilidade, o olhar reprovador pelo reparador e a boca venenosa para abençoada. Silencia nos momentos que o ideal necessita do trabalho mediúnico, demoraras tempo útil para recompor seus pensamentos nobres, e há muito tempo a fila espera para ser atendida.

Não temas, o trabalhador recebe sempre as palavras santificadas para socorrer. Se nada lhe for dito para enobrecer, cale. Prefira o silêncio da ignorância, do que propagar falsas idéias. És o socorrista no ambiente espiritual, espera o chamado e embarca com sua bagagem emocional preparada. Aflitos de toda ordem aguardam o auxilio em que foste enviado. De que modo suas bagagens hoje estariam organizadas?

Na casa do nosso Pai maior os medicamentos são o que podes irradiar através das palavras e mãos. Vigiai e orai sempre. A sirene do socorro soara a qualquer momento. Prepara-te sempre através dos ensinamentos enviados pelos irmãos superiores. Busca a disciplina nas suas ações para que não caia em tentação. É casa de meditação, de oração, de pensamentos renovadores.


Para mudar o ambiente não é necessário falar, se necessite usar da dicção, que seja sem ferir o próximo que busca concentrar sua paz em posição de receber. Postura amados irmãos, a multidão invisível espera ansiosa o socorro da paz. És espírita a todo instante. Segue com Jesus sempre. Muita paz. 

A questão da venda de livros espíritas


Muitos questionam se a venda de livros espíritas não estaria errada, mas a resposta é que não, não há nada de errado em vender livros espíritas, pelo contrário, a venda de livros espíritas é um meio de divulgar a Doutrina Consoladora. Inclusive, a venda de livros foi iniciada com Allan Kardec, que vendia suas obras em Paris e posteriormente para o mundo. Foi o Codificador que criou a primeira livraria espírita do mundo e sim, ele não doava os livros, ele vendia.

O dinheiro das vendas de livros espíritas é usado para compensar os gastos da produção e distribuição das obras (que abordaremos ali embaixo), além de também ser investido na divulgação da Doutrina Espírita.

Alguns companheiros falam: "Mas e cadê a caridade? Venda não é caridade.". Amigos, como todos sabem vivemos em um mundo capitalista, há gastos como elucidamos acima e explicaremos abaixo, logo, naturalmente precisamos de dinheiro para fazer as coisas acontecerem, inclusive no movimento espírita.

Se os livros não forem cobrados, como pagar os impostos, o material, os funcionários com seus direitos trabalhistas que dedicam de segunda a sexta, 08h por dia ao trabalho, as contas de água, luz, telefone das editoras e distribuidoras, os custos de transporte em transportadoras e/ou correios, por exemplo? São muitos gastos, estes citados não são nem 10% do total do que precisa ser custeado. Eu mesmo que redijo este texto, antes de pesquisar, não sabia o quanto se gastava para publicar e distribuir um só livro, é uma engrenagem complexa e cara! Ninguém faz nada de graça e ninguém é milionário para bancar tudo isso sozinho.

Jesus ensinou "Dai a César o que de César e a Deus o que é de Deus". Cobrar pelo material e trabalho profissional, pelo livro físico em si, é sim permitido, o que a Doutrina não aprova é cobrar pela mediunidade, o que é bem diferente.


A venda de livros espíritas não tem nada de ilícito e muito menos antidoutrinário, é na verdade uma forma de divulgar a Doutrina por meio da literatura. É na verdade uma grande rede de conjunto e ao pagar pelo livro espírita, o leitor está colaborando com os custos da obra que adquiriu, valorizando o trabalho e incentivando na publicação de outras obras, apoiando assim a propagação do Espiritismo.  

Entrevista com Richard Simonetti sobre Pretos Velhos


1 – O que dizer da manifestação de pretos velhos no Centro Espírita, com seu linguajar peculiar? Não devem ser estimulados a mudar a postura, instruindo-se?

R: Parece-me que a evolução não tem nada a ver com a expressão física ou linguística. Espíritos que se manifestam como pretos velhos podem ser muito evoluídos, tanto quanto branquelos podem ser atrasados.

 2 –     O problema é quando Espíritos apresentam-se como orientadores. Fica complicado aceitar que um mentor não tenha aprendido a falar.

R:  Kardec orienta que devemos considerar o conteúdo, não a forma. Respeitando a opção do Espírito, tudo o que nos compete avaliar é se sua mensagem guarda compatibilidade com os princípios espíritas.

 3 –     Não devemos, portanto, opor resistência à manifestação de pretos velhos, índios, caboclos?…

R: Não vejo motivo para cultivar preconceitos, mesmo porque, não raro, Espíritos dessa condição, menos esclarecidos e ainda vinculados às tradições da raça, manifestam-se para serem ajudados, não para receberem lições de português.

 4 -     E se estivermos diante de um condicionamento mediúnico, médiuns falando como pretos velhos por imitação?

R: É um problema que compete ao dirigente resolver, avaliando se está diante de manifestação autêntica ou de mero condicionamento a partir da influência de outros médiuns. Não costuma acontecer com médiuns que se preparam adequadamente em cursos específicos sobre mediunidade.

 5 –     Diante de uma manifestação autêntica, se o preto velho é um Espírito evoluído, não será razoável que se manifeste com linguagem escorreita, sem maneirismos?

R:  Penso que não devemos impor condições ao manifestante. Os Espíritos desencarnados, quando evoluídos, podem adotar a forma e o linguajar que lhes aprouver. É uma opção e um direito.

 6 –     Por que o fazem?

R: Pretos velhos revivem, nas manifestações, o tempo em que estiveram em regime de escravidão, que lhes foi muito útil, ajudando-os a superar o orgulho que marca o comportamento humano. É uma homenagem que prestam à raça negra e um exercício de humildade.

 7 –     Quanto à morfologia perispiritual, tudo bem. Quanto à palavra, não seria interessante usar uma linguagem atual, não africanizada?

R: Pode acontecer, mas aí vai depender do próprio grupo e de uma adequação dos médiuns. O Centro Espírita Amor e Caridade, em Bauru, foi orientado desde sua fundação, em 1919, por uma corrente africana. Seus representantes, em dado momento, observando a evolução do grupo, na década de 40, disseram: Pretalhada vai vestir casaca. Anunciavam por esta metáfora que a partir daquele momento eliminariam as expressões africanizadas, o que de fato ocorreu.

 8 –     Devemos, então, admitir que esses Espíritos façam uma adequação do linguajar, de conformidade com as tendências ou necessidades do grupo?

R:  Exatamente. Um confrade, médium vidente, visitou certa feita um grande terreiro de Umbanda, em Vitória, Espírito Santo. Viu algo que o perturbou: o Espírito Frederico Figner, que foi dedicado diretor da Federação Espírita Brasileira, manifestar-se como um preto velho. Julgou estar tendo uma alucinação e logo esqueceu. Algum tempo depois, em visita a Uberaba, ouviu alguém perguntar a Chico Xavier por onde andaria Frederico Figner. E o médium: Anda dando assistência a um terreiro de umbanda em Vitória, no Espírito Santo.


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O que as pessoas buscam no Espiritismo?


Divaldo Franco: O Espiritismo, através das suas lições profundas e consoladoras, consegue diminuir o sofrimento no ser humano. Dá diretrizes de harmonia e de segurança, mesmo na grande problemática que é a dor. Não é uma doutrina masoquista, que nos faz transferir responsabilidade. Uma vez alguém me disse que, com a tese da reencarnação nós deixávamos os deveres para serem cumpridos depois. Não é verdade. Porque acreditamos na reencarnação é que vivemos ativamente e procuramos fazer o máximo agora. A reencarnação funciona como uma metodologia evolutiva. Então, o Espiritismo é psicoterapêutico porque mostra a chaga do sofrimento, sua causa e a terapia libertadora. Todas as pessoas têm perguntas e o Espiritismo possui as respostas iluminativas.

Espiritismo, Umbanda e Candomblé não são a mesma coisa, saiba as diferenças


  O Espiritismo deve ser entendido como a Doutrina surgida na França no século XIX, no ano de 1857, cujos ensinamentos foram trazidos pelos Espíritos e organizados por Allan Kardec nos 05 livros que são considerados as obras básicas da Doutrina, são eles: 

- O Livro dos Espíritos
- O Evangelho Segundo o Espiritismo
- O Livro dos Médiuns
- A Gênese
- O Céu e o Inferno. 


"O Espiritismo é a nova ciência que vem revelar aos homens, por provas irrecusáveis, a existência e a natureza do mundo espiritual, e suas relações com o mundo corporal; ele no-lo mostra, não mais como uma coisa sobrenatural, mas, ao contrário, como uma das forças vivas e incessantemente ativas da Natureza (...). (Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap.I)

A Doutrina Espírita tornou-se extremamente popular no Brasil, país de maior número de seguidores do Espiritismo de que se tem conhecimento. Ao todo estima-se que hajam em torno de aproximadamente 4 milhões de espíritas e 30 milhões de simpatizantes, ou seja, pessoas que não estudam o Espiritismo mas que acreditam naquilo que é ensinado. 

Após o desencarne do Codificador do Espiritismo, Allan Kardec, o célebre estudioso León Denis deu continuidade nos trabalhos iniciados pelo companheiro (aos que não sabem, Léon Denis reencarnou com o objetivo de auxiliar Kardec e caso este falhasse assumiria a missão de Codificar a Doutrina). A esposa de Kardec, Amélie Gabriele, teve grande importância no Movimento e também auxiliou dando continuidade nos trabalhos do falecido marido. Amélie publicou o livro Obras Póstumas com escritos inéditos do falecido marido e administrou a primeira livraria espírita do mundo.  No Brasil, o Espiritismo ganhou destaque com Bezerra de Menezes, Chico Xavier, Yvonne do Amaral Pereira, Divaldo Franco, dentre outros. 

Importante lembrar que no Espiritismo não há qualquer forma de hierarquia de qualquer espécie entre seus membros ou órgãos. Além disso, o Espiritismo possui total ausência de imagens, paramentos, símbolos, rituais, sacramentos ou outras quaisquer manifestações exteriores. 


 A Umbanda é uma religião brasileira nascida em 1908 pelo médium Zélio de Moraes. Une elementos de diferentes religiões africanas e cristãos. Os umbandistas acreditam plano espiritual mas não possuem uma Doutrina Codificada; Possuem rituais específicos em suas celebrações. Os encontros são realizados nos chamados Terreiros de Umbanda. 


Ao longo do tempo, a umbanda passou por transformações e foi se demarcando de outras religiões. Também criou ramificações, algumas delas são descritas como: Umbanda Tradicional: criada no Rio de Janeiro pelo jovem Zélio Fernandino de Moraes; Umbandomblé ou Umbanda Traçada: onde um mesmo sacerdote pode realizar sessões distintas de umbanda ou de candomblé; Umbanda Branca: utiliza elementos espíritas, kardecistas e os adeptos usam roupas brancas; Umbanda de Caboclo: forte influência da cultura indígena brasileira.

Apesar de diferentes vertentes existem alguns conceitos encontrados que são comum a todas, sendo estes:

- Um deus único e onipresente, chamado Olorum ou Zambi.
- Crença nas Divindades ou orixás
- Crença na existência de Guias ou entidades espirituais
- A imortalidade da alma
- Crença nos antepassados
- A reencarnação
- O carma

A hierarquia na Umbanda pode variar dependendo da quantidade de membros de modo que pode se dividir em um grupo administrativo e grupo espiritual.


 O Candomblé originalmente africana que foi trazida pelos negros escravizados no final de século XVI. É considerada uma religião musical que tem como divindade os Orixás, que recebem oferendas especiais em celebrações especiais. Os rituais do candomblé são liderados pela mãe-de-santo ou pai-de-santo, sendo que existe uma hierarquia definida. Muitas vezes os rituais são caracterizados por danças em adoração ao orixá, que encarnam no filho ou filha de santo.


As manifestações ocorrem nas casas ou terreiros, onde existem altares. Cada orixá tem um dia específico e mesmo alimentos próprios, que alguns seguidores evitam comer alguns alimentos que são considerados proibidos ou não aconselhados.

Os orixás, para o candomblé, são os deuses supremos. Possuem personalidade e habilidades distintas, bem como preferências ritualísticas. Estes também escolhem as pessoas que utilizam para incorporar no ato do nascimento, podendo compartilhá-lo com outro orixá, caso necessário.

O candomblé não pode ser igualado à umbanda. No candomblé, não há incorporação de espíritos, já que os orixás que são incorporados são divindades da natureza; enquanto na umbanda, as incorporações são feitas através de espíritos encarnados ou desencarnados em médiuns de incorporação. Existem pessoas que praticam o candomblé e a umbanda, mas o fazem em dias, horários e locais diferentes.

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A Família Fox e os fenômenos de Hydesville


Publicação original foi no jornal "Folha Espirita" de outubro de 1995

A FAMÍLIA FOX 


   Em 11 de dezembro de 1847, a família Fox instalou-se em modesta casa no vilarejo de Hydesville, Estado de New York, distante cerca de 30 km da cidade de Rochester.

   O nome da família Fox origina-se do sobrenome Voss, depois Foss e finalmente Fox. Eram de origem alemã, da parte paterna; e francesa, holandesa e inglesa, da parte materna. Seus antecessores foram notoriamente dotados de faculdades paranormais.

   O grupo compunha-se do chefe da família, Sr. John D. Fox, da esposa D. Margareth Fox e mais duas filhas; Kate, com 7 anos e Margareth, com 10 anos. O casal possuia mais filhos e filhas. 

   Inicialmente, tomaram parte nos acontecimentos somente Kate e Margareth, mas posteriormente Leah juntou-se a elas e teve participação ativa nos episódios subsequentes ao de Hydesville.

A CASA DE HYDESVILLE JÁ ERA ASSOMBRADA

   Lucretia Pulver era jovem que servira como dama de companhia do casal Bell, quando elas habitavam a referida casa até 1846. Ela contou uma curiosa história de um mascate que se hospedara com os Bells. Na noite em que o vendedor passou com aquele casal, Lucretia foi mandada a dormir na casa dos pais. Três dias depois tornaram a procurá-la. Então disseram-lhe que o mascate fora embora. Ela nunca mais viu esse homem.

  Depois disso, passado algum tempo, aproximadamente em 1844, começaram a dar-se fenomenos estranhos naquela casa. A mãe de Lucretia, Sra. Ann Pulver, que mantinha relações com a família Bell, relata que, em 1844, quando visitara a Sra. Bell, indo fazer tricô em sua companhia, ouvira desta uma queixa, Disse-lhe que se sentia muito mal e quase nao dormia à noite. Quando lhe perguntou qual a causa, a Sra. Bell declarou que se tratava de rumores inexplicáveis; parecera-lhe ter ouvido alguém a andar de um quarto para outro; acordou o marido e fe-lo levantar-se e trancar as janelas. A princípio, tentou afirmar à Sra. Pulver que possivelmente se tratasse de ratos. Posteriormente, confessou não saber qual a razão de tais rumores, para ela inexplicáveis.

   A jovem Lucretia Pulver também testemunhou os fenômenos insólitos observados naquela casa.

   Os Bells terminaram por mudar-se.

   Em 1846, instalou-se ali a família Weekman: Sr. Michael Weekman, Sra. Hannah Weekman e suas filhas. Alguns dias após terem-se alojado na referida casa, passaram a ser perturbados por ruídos insólitos: batidas na porta da entrada, sem que ninguém visível o estivesse fazendo; passos de alguém andando na adega ou dentro de casa.

   A família Weekman, como era de esperar-se, não permaneceu muito tempo naquela casa sinistra. Em fins de 1847 deixou-a vaga, saindo de lá definitivamente.

   Desse modo, atingimos a data de 11 de dezembro de 1847, quando a referida casa passou a ser ocupada pela família Fox, conforme já mencionamos no início deste artigo.

A NOITE DAS PRIMEIRAS TRANSCOMUNICAÇÕES

   Inicialmente os Fox não sofreram nenhum incômodo em sua nova residência. Entretanto, algum tempo depois, mais precisamente nos dois primeiros meses de 1848, os mesmos ruídos insólitos que perturbaram os antigos inquilinos voltaram a manifestar-se outra vez. Eram batidas leves, sons semelhantes aos arranhões nas paredes, assoalhos e móveis, os quais poderiam perfeitamente ser confundido com rumores naturais produzidos por vento, estalos do madeiramento, ratos, etc. Por isso a família Fox não deveria ter-se sentido molestada ou alarmada. Entretando, tais ruídos cresceram de intensidade, a partir de meados de março de 1848. Batidas mais nítidas e sons de arrastar de móveis começaram a fazer-se ouvir, pondo as meninas em sobressalto, ao ponto de negarem-se a dormir sozinhas no seu quarto, e passarem a querer dormir no quarto dos pais. A princípio os habitantes da casa, ainda incrédulos quanto à possível origem sobrenatural dos ruídos, levantavam-se e procuravam localizar a causas natural dos mesmos.

   Na noite de 31 de março de 1848, desencadeou-se uma série de sons muito forte e continuados. Aí, então, deu-se o primeiro lance do fantástico episódio, que ficou como um marco inamovível na história da fenomenologia paranormal. A garota de sete anos de idade - a Kate Fox - em sua espontaneidade de criança teve a audácia de desafiar a "força invisível" a repetir, com os golpes, as palmas que ela batia com as mãos! A resposta foi imediata, a cada estalo um golpe era ouvido logo a seguir! Ali estava a prova de que a causa dos sons seria uma inteligência incorpórea. Para apreciar-se bem o sabor desta incrível aventura, vamos transcrever alguns trechos do depoimento da Sra. Margareth Fox.

  "Na noite de sexta-feira, 31 de março de 1848, resolvemos ir para a cama um pouco mais cedo e não nos deixamos perturbar pelos barulhos; íamos ter uma noite de repouso. Meu marido que aqui estava em todas as ocasiões, ouviu os ruídos e ajudou a pesquisar. Naquela noite fomos cedo para a cama - apenas escurecera. Achava-me tal alquebrada e com falta de repouso que quase me sentia doente. Meu marido não tinha ido para a cama quando ouvimos o primeiro ruído naquela noite. Eu apenas me havia deitado. A coisa começou como de costume. Eu distinguia de qualquer outro ruído jamais ouvido. As meninas, que dormiam em outra cama no quarto, ouviram as batidas e procuraram fazer ruídos semelhantes, estalando os dedos. Minha filha menor, Kate, disse, batendo palmas: "Senhor Pé Rachado, Faça o que eu faço." Imediatamente seguiu-se o som, com o mesmo número de palmadas. Quando ela parou, o som logo parou. Então Margareth disse brincando: "Agora faça exatamente como eu. Conte um, dois, três, quatro" e bateu palmas. Então os ruídos se produziram como antes. Ela teve medo de repetir o ensaio. Então Kate disse, na simplicidade infantil: "Oh! mamãe! eu já sei o que é. Amanhã é primeiro de abril e alguém quer nos pregar uma mentira."

   "Então pensei em fazer um teste que ninguém seria capaz de responder. Pedi que fossem indicadas as idades de meus filhos, sucessivamente. Instantaneamente foi dada a exata idade de cada um, fazendo pausa de um para outro, a fim de separar, até o sétimo, depois do que se fez uma pausa maior e três batidas mais fortes foram dadas, correspondendo a idade do menor, que havia morrido.

   "Então perguntei: É um ser humano que me responde tão corretamente? Não houve resposta. Perguntei: É um espírito? Se for, de duas batidas. Duas batidas foram ouvidas assim que fiz o pedido. Então eu disse: Se for um espírito assassinado dê duas batidas. Essas foram dadas instantaneamente, produzindo um tremor na casa. Pergutei: Foi assassinado nesta casa? A resposta foi como a precedente. A pessoa que o assassinou ainda vive? Resposta idêntica, por duas batidas. Pelo mesmo processo verifiquei que fora um homem que o assassinaram nesta casa e os seus despojos enterrados na adega; que a família era constituída de esposa e cinco filhos, dois rapazes e três meninas, todos vivos ao tempo de sua morte, mas que depois a esposa morrera. Então perguntei: Continuará a bater se chamarmos os vizinhos para que também escutem? A resposta afirmativa foi alta."

   Desse modo foram chamados vários vizinhos, os quais por sua vez convocaram outros, de maneira que, mais tarde e nos dias subseqüentes, o número de curiosos era enorme. Naquela noite compareceram o Sr. Redfield, o Sr. e Sra. Duesler e os casais Hyde e Jewell.

   "Mr. Duesler fez muitas perguntas e obteve as respostas. Em seguida indiquei vários vizinhos nos quais pude pensar, e perguntei se havia sido morto por algum deles, mas não obtive resposta. Após isso, Mr. Duesler fez perguntas e obteve as respostas. Perguntou: Foi assassinado? Resposta afirmativa. Seu assassino pode ser levado ao tribunal? Nenhuma resposta. Pode ser punido pela lei? Nenhuma resposta. A seguir disse: Se seu assassino não pode ser punido pela lei de sinais. As batidas foram ouvidas claramente. Pelo mesmo processo Mr. Duesler verificou que ele tinha sido assassinado no quarto do leste, a cinco anos passado, e que o assassínio fora cometido à meia noite de uma terça-feira, por Mr......; que fora morto com um golpe de faca de açougueiro na garganta; que o corpo havia sido enterrado; tinha passado pela dispensa, descido a escada e enterrado a dez pés abaixo do solo. Também foi constatado que o móvel fora dinheiro.

   "Quanta a quantia: cem dólares? Nenhuma resposta. Duzentos? Trezentos? etc. Quando mencionou quinhentos dólares as batidas confirmaram.

   "Foram chamados muitos dos vizinhos que estavam pescando no ribeirão. Estes ouviram as mesma perguntas e respostas. Alguns permaneceram em casa naquela noite. Eu e as meninas saímos. Meu marido ficou toda a noite com Mr. Redfield. No sábado seguinte a casa ficou superlotada. Durante o dia não se ouviram os sons, mas ao anoitecer recomeçaram. Diziam que mais de trezentas pessoas achavam-se presentes. No domingo os ruídos foram ouvidos o dia inteiro por todos quantos se achavam em casa".

   Estes são os principais trechos do depoimento da Sra. Margareth Fox, que mais nos interessam para dar uma descrição viva dos acontecimentos de Hydesville, na sinistra noite de 31 de março de 1848.

AS ESCAVAÇÕES NA ADEGA 

   Os mais interessados em esclarecer o caso resolveram escavar a adega, visando encontrar os despojos do suposto assassinado. Eis que, através de combinação alfabética com as pancadas produzidas, chegaram à identidade da vítima. Tratava-se de um mascate de nome Charles B. Rosma, o qual tinha trinta e um anos quando, há quatro anos passado, fora assassinado naquela casa e enterrado na adega. O assassino fora um antigo inquilino. Só poderia ter sido o Sr. Bell... Mas onde a prova do fato, o cadáver da vítima? A solução seria procurá-lo na adega, onde estaria enterrado.

   As escavações, porém, não levaram a resultados definitivos, pois deram n'água, sem que se tivessem encontrado quaisquer indício. Por essa razão foram suspensas.

   No verão de 1848, o próprio Sr. David Fox auxiliado por alguns interessados retomou o empreendimento. A uma profundidade de um metro e meio, encontraram uma tábua. Aprofundada a cova, encontraram o carvão, cal, cabelos e alguns fragmentos de ossos que foram reconhecidos por um médico como pertencentes a esqueleto humano; mais nada.

   As provas do crime eram precárias e insuficientes, razão talvez pela qual o Sr. Bell não foi denunciado.

A DESCOBERTA DO ESQUELETO 

   Em o número de 23 de novembro de 1904, do Boston Journal, foi notificada a descoberta do esqueleto de um homem cujo Espírito se supunha ter ocasionado os fenômenos na casa da família Fox em 1848. Meninos de uma escola achavam-se brincado na adega da casa onde moravam os Fox. A casa tinha fama de ser mal-assombrada. Em meio aos escombros de uma parede - talvez falsa - que existira na adega, os garotos encontraram as peças de um esqueleto humano.

   Junto ao esqueleto foi achada uma lata de uma espécie costumeira usada por mascates. Esta lata encontra-se agora em Lilydale, a sede central regional dos Espiritualistas Americanos, para onde foi transportada a velha casa de Hydesville.

   Como pode ver-se, cinquenta e seis anos depois, em 22 de novembro de 1904 (data do encontro do esqueleto do mascate), parece não haver dúvida de que foram confirmadas as informações obtidas em 1848 a respeito do crime ocorrido naquela casa. Este episódio constitui-se em um notável caso de TCD (transcomunicação direta). As evidências são muito fortes.

O MOVIMENTO ESPALHA-SE

   As duas garotas, Margareth e Kate, foram afastadas de sua casa, pois suspeitava-se que os fenômenos eram ligados sobretudo à sua presença. Margareth passou a morar com seu irmão David Fox. A Kate mudou-se para Rochester, onde ficou em casa de sua irmã Leah, então casada e agora Sra. Fish. Entretanto, os ruídos insistiam em acompanhar as irmãs Fox; onde elas se achavam, ocorriam os fenômenos. Parece que agora se observava uma espécie de contágio, pois, Leah Fish, a irmã mais velha, passou a apresentar também os mesmos fenômenos. Logo mais, começaram a surgir em outras famílias:

   "Era como uma nuvém psíquica, descendo do alto e se mostrando nas pessoas suscetíveis. Sons idênticos foram ouvidos em casa do Rev. A.H.Jervis, ministro metodista residente em Rochester. Poderosos fenômenos físicos irromperam na família do Diacono Hale, de Greece, cidade vizinha de Rochester. Pouco depois Mrs. Sarah A. Tamlin e Mrs. Benedict de Auburn, desenvolveram notável mediunidade (...)".

  O movimento espalhar-se-ia, mais tarde, pelo mundo, conforme fora afirmado em uma das primeiras comunicações através das irmãs Fox. As próprias forças invisíveis insistiram para que se fizessem reuniões públicas onde elas pudessem manifestar-se ostensivamente. Era uma nova mensagem que vinha do mundo dos Espíritos, conclamando os homens para uma outra posição filosófico-religiosa.

"ESPIRITUALISMO" E ESPIRITISMO 

  A "Onda Espiritualista" passou da América para a Europa, cujo terreno já se encontrava preparado pelo desenvolvimento científico, e onde os fenômenos de TC (transcomunicação) iriam ser estudados mais tarde, com rigor e profundidade pelos fundadores da "Psychical Reserch" e da Metapsiquica.

   A forma bastante comum sob a qual a manifestações de TC (transcomunicação) se apresentaram na Europa, foi a das "mesas girantes". Vamos focalizar mais adiante e resumidamente esse período, do qual tambem se originou o Espiritismo na França, gracas às investigações científicas e ao método didático do ilustre intelectual lionês, Denizard Hypplite Leon Rivail (Allan Kardec).

  Nunca é supérfluo enfatizar que não se deve confundir o "Spiritualism" (Espiritualismo em inglês) com o espiritismo. O primeiro nasceu como um movimento popular, provocado por evidências a favor da crença na existência, sobrevivência e comunicabilidade do Espírito. Posteriormente o "Spiritualism"adquiriu a forma de um religiao organizada que aspira, também, ser uma Ciência e uma Filosofia.

  Agora, um ponto importante: o "Spiritualism" não incorporou a idéia da reencarnação. Ele admite apenas a continuidade da vida após a morte, sem inferno ou céu, porém em contínuo aprendizado e evolução no "Mundo Espiritual".

  Há algumas diferenças entre os princípios básicos do "Spiritualism" e do Espiritismo. A mais profunda é a questão da "reencarnação". O Espiritismo não só aceita o renascimento, como admite a Lei do Carma, considerando serem estes os fatores naturais da evolução do Espírito. Embora Allan Kardec, o codificador da Doutrina Espírita, considere Sócrates e Platão como os precursores da idéia cristã e do Espiritismo, a sua atenção para a realidade da comunicação dos Espíritos foi despertada pelo fenômeno das "mesas girantes".

REPERCUSSÃO ENTRE INTELECTUAIS 

  A partir do episódio das irmãs Fox, a transcomunicação, aqui no ocidente, passou atrair a atencao de um pequeno grupo de cientistas. Inicialmente, tais investigadores achavam-se, em sua maioria, imbuidos de forte cepticismo acerca do fenômenos paranormais que passaram a ganhar popularidade inusitada na Europa. Somente a curiosidade diante da estranheza de tais ocorrências conseguiu levar esses poucos cientistas a observá-las. Logo no começo da fase, as pesquisas conduziram à formação de três categorias de pessoas, conforme suas opiniões acerca da natureza dos referidos fenômenos.

  O primeiro grupo consistiu nos que viram nesses fatos uma confirmação de suas crencas na sobrevivência, na comunicabilidade e progresso dos Espíritos. A natureza do homem, para eles, era dual, e continha um componente espiritual além do material. Desta interpretação, surgiu um aspecto religioso como decorrência imediata do reconhecimento da natureza espiritual da criatura humana. O "Spiritualism", na Inglaterra, e o Espiritismo, na França, são exemplos dessa interpretação, embora ambos reivindiquem, também, para suas doutrinas, os aspectos filosóficos e científicos.

  Um segundo grupo constituiu-se, em sua maioria, por cidadãos de acentuado interesse científico. Alguns já eram cientistas profissionais, professores e investigadores em diversas áreas de conhecimento teórico e prático. Outros, com títulos e formação superior, embora nao especialistas em disciplinas científicas, sentiram-se também interessados em investigar de maneira racional os referidos fatos, denominados, na época, "fenômenos psiquicos". Daí a designação usual desta atividade: "Psychical Research" (Pesquisa Psiquica). Na França, Charles Richet deu-lhe outro nome: "Metapsiquica".

  No segundo grupo, figuravam, indistintamente, os espiritualistas, os indiferentes e os materialistas. Apenas os seguintes objetivos pareciam movê-los: confirmar ou negar os propalados fenômenos e, no caso afirmativo, descibrir a sua real causa eficiente.

  Finalmente, um terceiro grupo, compreendendo a maioria dos interessados, colocou-se em franco antagonismo relativamente aos dois primeiros. Compunha-se de cientistas, intelectuais em geral, jornalistas e pessoas comuns. Alguns eram fieis ou chefes de religiões instituídas. Grande número desses cidadãos, especialmente os intelectuais, achava-se impregnado de filosofias materialistas e havia absorvido as ideias positivistas. Revelaram-se profundamente céticos e procuraram liquidar com a crença nos aludidos fenômenos. Para eles, os fenômenos paranormais eram manifestações de superstição, ilusões e fraudes, ou alienação mental. Para alguns religiosos, poderiam ser armadilhas do "demônio", ou tentativas de indivíduos mal intencionados que visavam abalar as bases das religiões tradicionais. Outros chegavam a acreditar que se tratava da revivescencia da Magia e do Ocultismo, numa tentativa de dominio de opinião pública.


CONCLUSÃO 

  Foi neste clima que se desenrolaram as dramáticas transcomunicações, cuja iniciativa, ao que parece, partiu do Plano Espiritual. As manifestações mais em evidência foram as chamadas "Mesas Girantes". Este episódio inaugurou o Período Espíritico, conforme a classificação de Charles Richet. Segundo este sábio, tal período vai das irmãs Fox ate as pesquisas de Sir Willian Crookes, em 1872. 



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Espiritismo cresce no Brasil

Por  Jarbas Aragão 

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) afirma que o Brasil tem 3,8 milhões de pessoas que se declaram espíritas. Some-se a isso 30 milhões de “simpatizantes”, defende a Federação Espírita Brasileira. Oficialmente, entre 2000 e 2010, o número de seguidores do espiritismo cresceu 65% no Brasil. Segundo a Federação, continua crescendo. É um tema recorrente em novelas e programas da televisão brasileira.

Geraldo Campetti, vice-presidente da Federação Espírita Brasileira, assegura: “Nossa população aceita muito bem a ideia de vida após a morte”. Para muitos estudiosos do assunto, o kardecismo é uma criação brasileira. Eles apontam 3 fatores que ajudaram na formulação nacional dessa doutrina: o sincretismo brasileiro (em especial por que para os católicos a ideia de falar com santos mortos era comum), a proximidade entre espiritismo e cristianismo no ensino das boas obras e, por fim, a popularização dos ensinamentos através de Chico Xavier.

Alguns dados do IBGE:
3,8 MILHÕES de pessoas se declararam espíritas, ou seja, 2% da população. A Região Sudeste foi a que mais ganhou adeptos ao espiritismo. De 2% passou para 3,1% da população, aumento de mais de 1 milhão de pessoas. O Estado com maior proporção de espíritas é o Rio de Janeiro.

Entre as religiões, os espíritas têm as maiores proporções de pessoas com Ensino Superior, 98,6%

Os espíritas também apresentaram as menores percentagens de indivíduos sem instrução (1,8%) e com Ensino Fundamental incompleto (15%).

Você Sabia? Espíritas ajudaram na libertação dos escravos no Brasil



Daniel Simões do Valle

Portal de Notícias  UOL 

   A ideia da abolição tornou-se, ao longo da década de 1880, um guarda-chuva sob o qual se agasalharam-se diferentes tendências e matizes”, esclarece a historiadora Maria Helena Machado, em o plano e o pânico. Nesse rol, podemos incluir as propostas defendidas pelos espíritas. A preocupação dos adeptos da doutrina codificada por Allan Kardec com a escravidão já vinha de longa data.


   Em julho de 1869, o primeiro periódico espírita brasileiro, publicado em Salvador, assumia o seguinte compromisso: O Écho d’Além-Tumulo deduzirá de cada assinatura realizada 1$000, cuja soma será anualmente publicada e destinada para dar liberdade a escravos, de qualquer cor, do sexo feminino, de 4 a 7 anos de idade, nascidos no Brasil”.

   Para alguns espíritas, o compromisso com o fim da escravidão precedeu sua conversão à doutrina. Esse era o caso de importantes lideranças do espiritismo na corte, como Antônio da Silva Neto, Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti, Francisco Leite de Bittencourt Sampaio e Francisco Raimundo Ewerton Quadros. Ainda na década de 1860, eles já se haviam manifestado contrários ao trabalho escravo.

  Naquela época, a proposta mais recorrente era “emancipação”, que consistia em adotar medidas paulatinas que contribuíssem para substituir gradativamente a mão de obra escrava pelo trabalhador livre. O termo “abolição” era evitado nas discussões políticas, uma vez que a possibilidade de libertar todos os escravos de uma só vez era refutada até mesmo por alguns dos que condenavam o cativeiro. Temia-se que tal decisão pudesse redundar em drásticas consequências, tais como: a desorganização da produção agrícola, a crise econômica, o despreparo do escravo para a vida em liberdade e a desordem social. Por isso, havia o entendimento de que era necessário preparar o país para a mudança.

LIBERTAR E EDUCAR OS ESCRAVOS

   Movido por esse ideal e com intuito de propor soluções para o problema, o engenheiro Antônio da Silva Neto publicou três trabalhos:Estudos sobre a emancipação dos escravos no Brasil (1866), Segundos estudos sobre a emancipação dos escravos no Brasil (1867) eA Coroa e a emancipação do elemento servil (1869). Neles, defendia a libertação dos filhos das escravas, a adoção de medidas para educá-los e a extinção da escravidão no prazo de 20 anos.

   Bezerra de Menezes, médico e político reconhecido na corte, tomou iniciativa semelhante e, em 1868, publicou o opúsculo A escravidão no Brasil e as medidas que convém tomar para extingui-la sem dano para a nação, no qual também defendia a libertação dos filhos de ventre escravo.

   A proposta apresentada por ambos não era uma novidade, nem eles eram os únicos a defendê-la. Na verdade, ela estava presente nos jornais e nos folhetos que circulavam pelas ruas da corte. Além disso, tal medida encontrava-se em discussão no Parlamento, mas só seria aprovada em 1871, por meio da Lei do Ventre Livre.

   Esse debate público sobre a escravidão se acirrou nos anos seguintes e fervilhou na década de 1880, quando já se defendia abertamente a necessidade urgente de abolição do trabalho escravo. Nesse contexto, a imprensa tornou-se uma verdadeira tribuna política. José do Patrocínio (1853-1905) é um caso exemplar de como os abolicionistas utilizaram os jornais para formar uma opinião pública favorável ao fim da escravidão. Atuando à frente de alguns periódicos, como Gazeta de Notícias, Gazeta da Tarde e Cidade do Rio, ele disparava constantes ataques contra o escravismo.

   Nesse momento, Antônio da Silva Neto, Bezerra de Menezes, Bittencourt Sampaio e Ewerton Quadros estavam em plena militância espírita, ocupando papel de destaque em instituições espíritas da corte e contribuíam ativamente nos periódicos espíritas em circulação. As experiências adquiridas por esses homens em suas trajetórias intelectual, profissional e política exerceram forte influência na condução dada por eles ao trabalho de difusão do espiritismo no Brasil. Com suas convicções e em diálogo com os princípios espíritas, eles contribuíram para que as instituições espíritas se posicionassem diante do debate sobre a escravidão.

KARDEC E A ESCRAVIDÃO 

   Em O livro dos espíritos, Allan Kardec foi bem claro ao tratar do assunto. Ao serem questionados, os espíritos responderam: “É contrária à lei de Deus toda sujeição absoluta de um homem a outro homem. A escravidão é um abuso de força. Desaparecerão com o progresso, como gradativamente desaparecerá todos os abusos”. Desse modo, o direito à liberdade seria um princípio fundamental da doutrina espírita por ser uma lei divina, logo toda forma de escravidão seria condenável. No entanto, que interpretação os espíritas fizeram desse ensinamento? As páginas da imprensa espírita trazem as respostas para essa questão.

   No final do século XIX, a imprensa consolidara-se como um importante veículo difusor de ideias. Havia mais jornais em circulação e crescia o público leitor. Os espíritas estavam atentos a essas mudanças e, desde cedo, elegeram os periódicos como um canal de propaganda espírita. Na década de 1880, circula vam na corte dois importantes periódicos espíritas: a Revista da Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade e O Reformador. A imprensa espírita tinha como principal objetivo a divulgação dos princípios da doutrina e a refutação dos ataques dos detratores. No entanto, não se omitia em relação às questões em debate no cenário nacional e não foi diferente quanto à escravidão e sua abolição.

   Desde o início, a imprensa espírita assumiu uma postura contrária à escravidão, mas nem sempre defendeu a abolição. Em artigo publicado em julho de 1882, na Revista da Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade, a redação do periódico manifestava-se a favor da emancipação dos escravos, mas afirmava que “a abolição é prejudicial ao escravo e perniciosa à sociedade”. No entanto, ao longo da década de 1880, com o avanço da campanha abolicionista, houve uma mudança de posicionamento. Os espíritas foram abandonando o tom mais moderado e passaram a defender o fim imediato da escravidão.

   Para os espíritas da corte, a extinção do cativeiro era uma entre outras reformas fundamentais para o progresso do país, tais como: o estabelecimento de um Estado laico (uma forma de limitar o ainda marcante poder da Igreja), a liberdade de consciência, a garantia do acesso à terra e o estímulo à vinda de imigrantes. Desse modo, além de dialogarem com os abolicionistas, os espíritas também estavam integrados ao debate político da época, adotando posicionamentos que os aproximavam de certos agrupamentos políticos como os “novos liberais”, os “liberais republicanos” e os “positivistas abolicionistas”.

   Nas páginas da imprensa, os espíritas defenderam o fim da escravidão por via legal, sem estimular agitações ou revoltas. Seu discurso sempre esteve voltado para os senhores de escravos, os legisladores e o governo imperial. Em 15 de novembro de 1884, um artigo publicado no Reformador, assinado com o pseudônimo de Sedora, cobrava da classe política uma atitude para livrar o país dessa doença: “Façam os estadistas como os cirurgiões, extirpem o cancro que vicia e corrói o organismo social, acabem com a escravidão”. Noutras ocasiões, o recurso era apelar ao sentimento cristão da população, em especial dos senhores, para estimulá-los a conceder alforria aos seus cativos.

Com a reencarnação, “o senhor de hoje é o escravo de amanhã”.


   Assim como outras correntes abolicionistas, os espíritas avaliavam o problema da escravidão considerando os aspectos políticos, econômicos e sociais; no entanto, eles construíram discursos originais ao analisar a questão do ponto de vista espiritual. Na perspectiva espírita, a luta contra a escravidão era um movimento que ocorria em dois planos: no material e no espiritual. Em várias oportunidades, eles rogaram a assistência da espiritualidade na condução do problema, atribuíram os avanços obtidos ao apoio dos espíritos desencarnados e divulgaram comunicações espíritas favoráveis ao fim do cativeiro.

   Durante evento, em 1886, que lembrava o desencarne de Allan Kardec, o orador, Manoel Fernandes Figueira, evocou o auxílio do mundo espiritual: “Venha toda essa legião de espíritos da América do Norte para auxiliar a obra da redenção na América do Sul” (Reformador, 1º de maio de 1886). Figueira pedia a contribuição de alguns ilustres já desencarnados como Washington, Lincoln, Victor Hugo, Luís Gama e tantos outros que haviam dado provas de “ardente caridade”. Desse modo, os espíritas entendiam que a transformação social seria fruto do intercâmbio entre o mundo terreno e o mundo espiritual.

   A reencarnação também foi um argumento importante para sensibilizar ou mesmo ameaçar os senhores. “Se conheceis a verdade da multiplicidade das existências humanas, sabereis também que o senhor de hoje é o escravo de amanhã, como este já foi o dominador da véspera” (Reformador, 13 de maio de 1885). Na perspectiva espírita, a situação do senhor era pior do que a do escravo, pois este já estaria expiando suas faltas nesta existência, enquanto o senhor, ao subjulgar seu irmão, estaria comprometendo seu futuro espiritual e assumindo novas dívidas perante a justiça divina.

   “Podemos, pois, nós que trabalhamos por ser espíritas, esquivar-nos a auxiliar aqueles que se afanam na grande obra de redenção dos cativos?” (Reformador, “Emancipação”, 13 de maio de 1885). Tal pergunta soava como uma convocação. O Reformador, então órgão oficial da Federação Espírita Brasileira, conclamava os espíritas a cerrar fileiras com os abolicionistas. Em sucessivos artigos, durante a década de 1880, o periódico defendeu ser um dever de todo espírita apoiar a causa. Em 15 de julho de 1887, o compromisso era reforçado: “A nós espíritas que respeitamos o Cristo como o nosso Mestre, o nosso Modelo e o nosso Chefe cabe o posto de avançada nesta cruzada bendita de liberdade”. De fato, os espíritas abraçaram a causa.

CARTAS DE ALFORRIA NOS CENTROS ESPÍRITAS

   Durante a campanha abolicionista, as instituições espíritas da corte mobilizaram-se frequentemente para arrecadar donativos que poderiam ter como destino o Fundo de Emancipação, ou mesmo a compra imediata da carta de liberdade. Nas festas organizadas pelos espíritas nas datas de nascimento e desencarne de Allan Kardec ou no aniversário de um centro espírita, o ponto alto era a entrega de uma carta de liberdade a um escravo.

   Segundo o historiador Eduardo Silva, no artigo “Resistência negra, teatro e abolição”, essa prática havia se tornado comum entre os abolicionistas. Ele afirma que “não houve grande benefício, festa ou comemoração abolicionista que não se encerrasse com a libertação de um ou mais escravos, levando os espectadores ao arrebatamento, às lágrimas e ao convencimento íntimo”.

   Havia uma rede envolvendo os espíritas e os movimentos abolicionistas. Um “grande número de associações libertárias, beneficentes, abolicionistas, lojas maçônicas e órgãos da imprensa” enviava seus representantes para os eventos realizados pelas instituições espíritas, conforme noticiou o Reformador em 15 de maio de 1883. Os espíritas, por sua vez, marcavam presença nas atividades organizadas por esses grupos e divulgavam suas ações em seus órgãos de informação.

   Em março de 1884, quando a corte mergulhou em longos dias de festejos para comemorar a abolição da escravidão no Ceará, a Federação Espírita Brasileira nomeou comissões para representá-la no evento e, através do Reformador saudou o esforço das sociedades abolicionistas e a importante vitória conquistada.

   Em 13 de maio de 1888, o clima de alegria que envolveu a cidade do Rio de Janeiro foi ainda maior e se estendeu por uma semana de comemorações. A extinção da escravidão no Brasil foi um acontecimento intensamente exaltado nas páginas do Reformador. Ao longo da década de 1880, o abolicionismo havia deixado de ser uma convicção de algumas lideranças espíritas para se tornar um posição adotada pelas instituições espíritas da corte. Desse modo, a imprensa espírita representou o pensamento de uma coletividade que, além de ser espírita, era abolicionista.