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Nossa conta particular ante a contabilidade divina

Por: Leda Maria Flaborea
Ah! Se tu conhecesses também, ao menos neste teu dia, o que à paz pertence!” – Jesus¹
Nesta passagem evangélica, encontramos Jesus junto à cidade de Jerusalém, exclamando essas palavras numa referência a toda infelicidade que se abateria sobre ela. É notário que o Mestre tinha conhecimento de todas as aflições pelas quais a humanidade terrena passaria, por conta do endurecimento de seu coração, e por essa razão, podemos dizer que elas não se referiam, apenas, à cidade material, mas a todos os homens que, como a cidade, estavam destinados à ruína pela degradação em todos os setores da experiência evolutiva.
Mas o que significam essas palavras de Jesus? Vamos, por alguns instantes, imaginar como seria o mundo se cada um conhecesse o que lhe pertence para a paz interior, ou seja, o que cada um de nós tem que possa nos trazer paz. Entretanto, como desenvolvemos uma atitude de total desatenção a esse imperativo da vida, terminamos por perder tempo precioso em atritos dolorosos, através dos quais acabamos por adquirir débitos imensos diante das Leis Divinas.
Sabemos que um gesto ou uma palavra são capazes de movimentar energias poderosas, desequilibrantes ou tranquilizadoras, de alegrias ou de tristezas, de paz ou de guerras, e essas palavras de Jesus nos convidam a pensar nas oportunidades de serviço que estamos deixando passar.
Por alguns momentos, ainda, atentemos para a afirmação do Divino Amigo quando nos diz “ao menos neste teu dia”. Ao menos hoje, agora, vamos prestar atenção a esse chamamento amoroso. Vamos, presentemente, observar de quais serviços podemos dispor para atender à solicitação do Divino Amigo, e podermos avaliar o tempo que perdemos – consciente ou inconscientemente – no cultivo de outros valores. Para o Espírito diligente, sempre há convites ao trabalho.
Torna-se necessário, portanto, diante desses convites, que procuremos com dignidade compreender nossos deveres, os compromissos morais a que cada um de nós está sujeito com todos aqueles que nos cercam. Compete a cada um de nós meditar a respeito disso, lembrando que “o homem encarnado dispõe de um tempo glorioso que é provisoriamente seu, dado pelo Altíssimo, em favor de sua própria renovação”.²
É razoável que cada um procure compreender a substância dos atos que pratica nas atividades diárias, porque, mesmo obedientes às leis humanas, é imprescindível examinarmos a qualidade do que fazemos para que, no mecanismo da vida do qual somos peça da engrenagem, não estejamos sendo fator de ferrugem ou de atraso no relógio do tempo. É da Lei da Deus que toda semeadura será devolvida. É preciso agir com cuidado em cada dia, porquanto o bem ou o mal, tendo sido semeados, crescerão junto de nós, de conformidade com as leis que regem a vida.
Podemos dizer o mesmo daqueles que se revoltam diante das dificuldades, das nuvens que surgem no horizonte: nuvens de contrariedades, de projetos que não deram certo, de esperanças desfeitas e, sem perceber, acabam envenenando as fontes da própria vida. Desejaríamos, todos nós, um céu azul no horizonte, um Sol brilhante durante o dia e um céu estrelado à noite. No entanto, as nuvens aparecem e a perplexidade toma conta de nós. Todavia, é preciso ficar atentos a esses momentos de sombras. A existência terrena impõe angústias e aflições a todos aqueles que lhe vivem a experiência. Porém, é conveniente que guardemos a serenidade e a confiança nesses momentos, pois é nessas sombras, comuns na luta planetária, que o Pai oculta lições profundas, através das quais nos fala sábia e amorosamente.
Não ignoramos a imortalidade do Espírito que habita em nós e, como tal, é fácil imaginar que uma única existência não seria o suficiente para aprendermos tudo aquilo de que necessitamos, a fim de sermos criaturas melhores e mais felizes. Melhores, porque precisamos de tempo e oportunidades para aprender a desenvolver as virtudes que Jesus veio nos ensinar. E se não tivermos esse tempo e essas oportunidades, não conseguiremos refazer nossas escolhas equivocadas, retomando o caminho do amor. Felizes, porque ao cuidarmos de cumprir nossas obrigações, poderemos sentir que todos os fantasmas de nossa inquietude são afastados, e que grande parte dos problemas sociais do mundo poderia ser resolvida naturalmente.
É, portanto, necessário que cada um conheça o que lhe toca, para que a tranquilidade individual se estabeleça em seu íntimo, e perceba que, ao cuidar de sua própria conta particular, ou seja, de seus créditos e de seus débitos com as Leis Divinas, estará, certamente, colaborando para que todos, ao seu redor, cuidem também das suas próprias contas, sem que nos transformemos em policiais do Evangelho. Quando assumimos a postura de zeladores da conta alheia, estamos nos candidatando a invasores da felicidade e da tranquilidade do próximo e, certamente, nos preparando para o ingresso em campos de grande sofrimento.
Mas Jesus não se cansa de nos convidar à prática do bem. Os apelos do Mestre continuam e se renovam a cada instante. Aqui, é um livro amigo que nos revela a verdade de maneira silenciosa. Ali, é um amigo generoso que insiste em que mudemos nossas atitudes, tendo em vista as realidades luminosas da vida. Acolá, é a doença no próprio corpo ou em pessoa querida que nos alerta para a necessidade de mudanças, valorizando mais o tempo que dispomos para o trabalho de renovação. E o que dizer, ainda, dos nossos pais, dos nossos mestres, do sentimento religioso que nos consola e que está sempre nos impulsionando ao exercício do amor. Tudo isso não são convites à prática do Bem?
O convite ao bem sempre nos acompanhou, mas dificilmente o percebemos. Por rebeldia, os homens costumam rir, passando, obrigatoriamente na direção de desencantos, de frustrações e desesperanças que, com o tempo, os obrigarão a equilibrar seus pensamentos. E se isso acontecerá, queiramos ou não, por que esperar que a necessidade se instale, que a dor tome conta de nosso ser, que a sombra nos açoite sem piedade, quando podemos seguir, calmamente, por estradas de luz e sem vacilar, em direção ao Pai Criador?
E por qual razão criamos tanta dificuldade para atender a esse chamamento? Porque temos o direito de escolher entre o certo e o errado, entre o fazer e o não fazer.  Temos também uma consciência que nos estimula e nos sustenta, para que decidamos, sempre, pelo certo e como ela é antagônica às seduções dos interesses e às seduções do coração, quase sempre sucumbimos.
Diante disso, seria bom perguntarmos: obedecemos a quem?  Aos impulsos baixos da natureza ou aos apelos do Mestre para o serviço de autoelevação? Se ainda não conseguimos definir a quem estamos submetidos, melhor parar e refletir para verificar se não estamos transformando obediência que salva em escravidão que condena. Para que o homem não se perdesse, Deus estabeleceu gradações evolutivas no caminho até Ele. Instituiu a lei do próprio esforço na aquisição dos supremos valores e determinou que esse homem aceitasse Seus desígnios, sem rebeldia para que pudesse ser, verdadeiramente, livre. Entretanto, o homem preferiu construir sua própria escravidão, organizando seu cativeiro através de desmandos, da posse material, da ganância, da vaidade, do orgulho e tantos outros sentimentos que nos ligam a condições de inferioridade.
Temos hoje plena consciência das nossas imensas dificuldades para praticar o Evangelho, rota segura para que cumpramos a lei do próprio esforço. Entendemos que ninguém poderá realizar por nós o que nos compete. E, justamente por termos consciência de tudo isso, graças ao conhecimento evangélico que já possuímos, é que não podemos mais adiar o que precisamos fazer. E o que é que precisamos fazer? A resposta surge clara diante do nosso tema: zerar nossa conta particular com as Leis de Deus.
Seria interessante lembrar, para finalizarmos, o que o Evangelho pergunta: se não houvesse as dificuldades, se não tivéssemos opositores, se não nos sentíssemos abandonados, se nunca fôssemos criticados ou ridicularizados, se os entes amados não nos trouxessem problemas ou se nunca fôssemos induzidos às tentações de todas as espécies, de que maneira seríamos obrigados a entesourar as luzes da experiência que nos permite a prática de virtudes que nos fortalecem a alma?

Bibliografia:
1 - LUCAS, 19:42.
2 – EMMANUEL (Espírito). Pão Nosso, [psicografado por] F.C.Xavier, 17ª ed., FEB, Rio de Janeiro/RJ- lição 38.
Outras fontes:
KARDEC, Allan.  O Evangelho segundo o Espiritismo, Capítulos 16 e 17.
EMMANUEL (Espírito). Palavras de Vida Eterna – [psicografado por] F.C.Xavier, 20ª ed., Edição CEC - Uberaba/MG – 1995, lição 14.  
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Seguir a luz para encontrar o caminho

Por: Leda Maria Flaborea

“Temos, porém, este tesouro em vasos de barro para que
 a excelência do poder seja de Deus e não de nós.” (1)

 Se formos ao dicionário, encontraremos a palavra pedra como sinônimo de dureza. Entretanto, Jesus recorreu a ela, muitas vezes, para significar firmeza. Ele próprio chamou Pedro, Seu discípulo de “rocha viva de fé”. Cada um de nós admira essa firmeza de fé, não importa de onde venha. O que não podemos é repousar sobre a firmeza alheia, esquecendo de construir nossos próprios alicerces.
Tudo na vida convida o homem ao trabalho de seu aperfeiçoamento e iluminação.
 Dizemos a todo instante que acreditamos em Deus, no Seu poder, na Sua bondade e na Sua justiça. Mas, também, a todo instante, só temos fé quando Ele cura nossos males, alivia as dores e as aflições, ou quando estamos relativamente felizes ou em paz. No Deus que permite que as tentações nos rondem a existência; que nos convida a lutar contra elas, tendo por suporte a firmeza de nossa fé; que testa essa firmeza quando nos envia padecimentos como experiências imprescindíveis ao nosso crescimento, nesse Deus não temos fé.
 Muitos possuem assim a singular disposição em matéria de fé: hoje creem, amanhã descreem. Ontem, se entregavam a firmes manifestações de fé; entretanto, porque alguém não se curou de algum mal, hoje perdeu a confiança, e se entregou ao longo caminho da negação. Ontem, iniciaram a prática do bem com fé e vontade, através do serviço e do consolo aos que sofrem; mas, alguém lhes tocou com os espinhos da ingratidão, e hoje, abandonam o serviço e os propósitos de fazer o bem.
Não compreenderam – e muitos de nós ainda não compreendem – que o exercício do amor não pode cansar o coração. Apesar de laboriosamente conquistarmos ou buscarmos conquistar os talentos da fé, do conhecimento superior, o dom de consolar e a capacidade de servir, nada disso nos pertence. O poder da fé, o esclarecimento através do conhecimento, a capacidade de consolar e servir na Seara do Mestre são bênçãos de Deus. É Dele o poder e não nosso. Quando compreendemos isso, entendemos também que nosso planeta não é lugar só de alegrias. Encontramos, ao contrário, lágrimas e penas amargas em todos os cantos. Entendemos, também, que os problemas da alma não estão circunscritos a dias ou a semanas terrenas, e nem podem viver acondicionados a deficiências físicas. Os problemas da alma são problemas de vida, de renovação e de eternidade. Se nos cansarmos de ter fé, de ter esperança, de praticar o bem por causa do mal que nos cerca, seja em nós mesmos ou no ambiente em que vivemos, como conseguiremos colher com nossas próprias mãos os benefícios que estão reservados para nós no futuro?
Até alcançarmos triunfo pleno sobre nossos desejos malsãos, sofreremos na vida, seja no corpo de carne ou além dele, os flagelos da tentação. Não é fácil nos desligarmos das forças que nos prendem aos círculos menos elevados da vida. Por essa razão, a vida continua semeando luz e oportunidade para que não nos faltem os frutos da experiência. Se a tentação nasce de nós porque ainda estamos imersos em nossos impulsos instintivos não dominados, o chamado à educação e ao aprimoramento vem de Deus.
Devagar, o trabalho e a dor, a enfermidade e o término da vida terrena nos fazem reconsiderar os caminhos até agora percorridos, impulsionando nossas mentes para a Esfera Superior. Quando compreendemos que as aflições são um mal necessário, compreendemos, também, que o remédio que nos ajudará a suportá-lo é a firmeza de nossa fé na justiça divina e no Seu infinito amor por todos os Seus filhos.
Apesar de nossa origem divina, mil obstáculos nos separam da Paternidade Celeste: o orgulho nos cega; o egoísmo nos tranca o coração; a vaidade nos ergue falsos tronos de favoritismo indébito, nos afastando da realidade; a ambição inferior nos lança em abismos de fantasias destruidoras; a revolta forma tempestades sobre nossas cabeças; a ansiedade nos fere a alma. E através desses sentimentos conflitantes e aflitivos, com os quais julgamos pertencer ao corpo físico, nos esquecemos de que todo patrimônio material que nos circunda representa empréstimos de forças e possibilidades para descobrirmos a nós mesmos e nos valorizarmos como filhos do Pai Criador. “É o conflito da luz e da treva em nós mesmos”, e, por essa razão, Emmanuel nos orienta a “seguirmos a luz para acertarmos o caminho”. 
“Todos os talentos que conquistamos, toda a capacidade de poder servir e todo fortalecimento das virtudes, sentimentos contrários às imperfeições que são os obstáculos a nos separar da Vida Superior”, na feliz definição do Apóstolo Paulo, “transportamos no vaso de barro da nossa profunda inferioridade, a fim de que  saibamos reconhecer que todo amor, toda santificação, toda excelência e toda beleza da vida não nos pertence de modo algum, mas sim à glória de nosso Pai, a quem nos cabe obedecer e servir, hoje e sempre.” Pela Sua infinita bondade, empresta-nos, oferece-nos todas as oportunidades, para que possamos crescer, evoluir e progredir espiritualmente em direção ao Seu amor.
Tudo que precisamos conquistar para nos tornarmos criaturas melhores está aí, às nossas vistas. Por não enxergarmos as possibilidades oferecidas, permanecemos mergulhados na amargura, na infelicidade e no desânimo, colocando-nos como vítimas e não como agentes na manutenção desse estado. Culpamos os outros, à vida e a Deus, por não nos darem oportunidades de melhoria. Quase sempre, esperamos que a solução venha do Alto, como chuva de luzes, resolvendo todos os nossos problemas,  arrancando-nos dessa apatia que sentimos diante das dificuldades, aliviando nossos padecimentos, sem precisarmos nos levantar, arregaçar as mangas e partir para o trabalho.
Não temos fé na Providência Divina? Às vezes temos, mas é uma fé vacilante. Fé daquele que só crê porque consegue ajuda momentânea e transitória. Quando acaba o efeito da ajuda, termina a fé. É difícil compreender que se a aflição é proporcional à falta cometida, o benefício, também, será proporcional ao mérito do nosso trabalho.
Deus não tem dois pesos e duas medidas. A fé é um estado de graça, bênção divina, que precisa ser fortalecida a cada dia, e isso só acontece quando transformamos essa fé em obras no bem, a começar por nós mesmos.

Bibliografia:
(1) PAULO, II Coríntios, 4:7.
(2) EMMANUEL (Espírito) – Palavras de Vida Eterna. [psicografado por] F. C. Xavier – 20ª ed., Comunhão Espírita Cristã Edições – UBERABA/MG – 1995 – lição 21.
(3) Vinha de Luz. [psicografado por] F. C. Xavier – 14 ed., RIO DE JANEIRO/RJ – lição 40.
(4) KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, Capítulo XIX. 
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No auxílio a todos

Por: Leda Maria Flaborea

“Pelos reis e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida justa
 e sossegada em toda a piedade e honestidade.” – Paulo¹

Se observarmos nossas conversas e nossas preces, poderemos notar que, na maioria das vezes, nos lembramos das dificuldades e das aflições dos menos felizes no mundo. Quase sempre nossos pensamentos e palavras se voltam para os enfermos, para os desesperados, afundados na miséria ou vitimados por flagelos naturais ou públicos. Para essas criaturas somos capazes de relacionar suas necessidades e tentar ajudá-las, na medida das nossas possibilidades.
Todavia, Paulo, nessa carta ao seu amigo e companheiro de luta, Timóteo, lembra-nos que não são apenas os menos afortunados que precisam das nossas preces ou dos nossos pensamentos amorosos mas, e sobretudo, aqueles que de posse dos cargos de mando ou de riquezas imensas são muito mais tentados aos erros que os primeiros.
A oração, marco renovador de nossas forças, propicia-nos, sobremaneira, a oportunidade de nos voltarmos para essas criaturas que, sob o peso da autoridade, comandam, dirigem, orientam, esclarecem e instruem. Esquecemo-nos, quase sempre, dos tormentos que vivem esses corações quando precisam decidir o destino de tantos, arcando, perante as leis dos homens e as Leis de Deus, com a carga de responsabilidade sobre suas escolhas.
Longe deveríamos estar da cobiça que esse poder confere, pois não ignoramos que, a cada um sendo dado segundo as suas obras, nos levará a tentações e provas ocultas de toda espécie das quais, dificilmente, como coletividade, tomamos conhecimento. Quantas dúvidas, quanto desespero abrigam, muitas vezes, esses corações encaminhados a essas tarefas. Quantas vicissitudes experimentam que muitas, podemos ver, acabam por se refletirem nas decisões que tomam.
Se examinarmos nossa vida diária e prestarmos atenção às inúmeras vezes que tivemos de fazer escolhas, que não envolviam apenas a nós, nossa vida, mas a vida das pessoas que nos cercam; e se nos lembrarmos das imensas dificuldades que experimentamos pelo medo de errar, pela incerteza de se estar fazendo ou não o melhor, é fácil entendermos a proporção das dificuldades daquele que é encaminhado à eminência do poder, e que deve fazer escolhas que envolvem, muitas vezes, uma nação. A própria história da humanidade nos mostra esses homens, levando seus rebanhos como pastores enlouquecidos, carregando aflições de todos os tipos, que se projetam sobre as ovelhas que deveriam conduzir nos caminhos do equilíbrio e da prosperidade.
De um lado, os condutores desequilibrados; de outro, homens conduzidos que recolhem para si essas atitudes - como se fossem corretas -, sem se darem conta de que estão sendo atirados às calamidades físicas e morais, a moléstias coletivas de longo curso, que atrasam a evolução e atormentam a vida. Homens que não colocam, sob o crivo da razão, a lógica de suas escolhas, sejam elas de comando ou, simplesmente, de aceitação.
O Apóstolo Paulo lembra, em sua carta, que esses homens também são nossos irmãos, conduzidos à excelência do poder e da fortuna, da administração ou da liderança, carregando, em todos os momentos, tentações e provas de todas as espécies e levando consigo, através de estados conscienciais de luz ou sombra, as consequências advindas dessa condução.
Recorda-nos, também, Emmanuel, das vezes em que, examinando a conduta desses companheiros, nessa ou naquela circunstância difícil, condenamos suas dificuldades morais, esquecendo-nos dos dias de cinza e de pranto em que o Senhor nos susteve a queda a poucos milímetros da derrota.  Porém, mais grave do que isso, é acreditarmos que não mais teremos problemas pela frente, julgando com severidade e impiedosamente, como se fôssemos incapazes de cometer os mesmos enganos, se colocados na posição do outro, envolvidos nas mesmas circunstâncias e experimentando as mesmas dúvidas.
Todo serviço que deixarmos incompleto na retaguarda encontrar-nos-á no caminho, para que o terminemos. E “qualquer que seja esse remate a ser feito, em todas as nossas lutas, o fecho do amor, em nome de Jesus, será o selo da paz a nos nortear a jornada”. ² A pedra que atirarmos em telhado alheio voltará com o tempo sobre nosso próprio teto; assim como o veneno que destilarmos sobre a esperança de quem quer que seja retornará sobre nossa esperança, nos testando a resistência. E quantos de nós já não experimentam, hoje, do próprio veneno?
Emmanuel diz: “Não nos esqueçamos, pois, da oração pelos que dirigem, auxiliando-os com a bênção da simpatia e da compaixão, não só para que se desincumbam zelosamente dos compromissos que lhes selam a rota, mas também para que vivamos, com o sadio exemplo deles, na verdadeira caridade uns para com os outros, sob a inspiração da honestidade, que é a base de segurança em nosso caminho”. ³ E se a nação é conjunto de cidades, se a cidade é um agrupamento de lares e se o lar é um ninho de corações, não nos iludamos, pois, ao pretender imaginar que apenas aqueles que estão na posse do poder temporário têm obrigações com a sociedade. Cada um de nós, no nosso lar, é o responsável pela harmonia e pelo progresso de todos os outros que compõem esse grupo.
A harmonia começará, sempre, no íntimo do nosso ser: “Não faço nada para não ter trabalho depois” – e isto é inércia e não harmonia –, quando deveria ser: “Porque procuro modificar minha forma de ver o outro para, procurando ser uma pessoa melhor, compreender suas dificuldades, seus limites e, através do meu exemplo, ajudá-lo a evoluir junto comigo”.
Lembra-nos, ainda, mais uma vez, o Instrutor Emmanuel que mesmo havendo razões de queixa, que sejamos a cooperação para que o equilíbrio seja restaurado e a consolação que refaz esperanças, ainda que espinhos nasçam e se espalhem. É imprescindível reafirmarmos, a cada dia, o compromisso do serviço junto a Jesus, silenciando sempre onde não possamos agir em socorro do próximo.
Só podemos cobrar dos outros aquilo que já faz parte da nossa forma de viver e de entender o mundo e as pessoas.  Vamos assim, antes de criticar, examinar como procedemos em nosso círculo de existência.
Por sermos todos Espíritos endividados com as leis Divinas, não nos esqueçamos de que ninguém fugirá ao julgamento da Lei Eterna. Desta maneira, quando nos recolhermos em preces ou quando em reuniões esclarecedoras, lembremo-nos de pedir, de suplicar a Deus, inspirados na prece do Espírito Cerinto, na psicografia de Francisco Cândido Xavier, em novembro de 1955: 
- “... não pelos que choram, mas pelos que fazem as lágrimas.
- não pelos que padecem, mas supliquemos bênçãos para todos aqueles que provocam o sofrimento.
- não lembremos a Deus os fracos da Terra, mas recordemos quantos se julgam poderosos e vencedores.
-  Não intercedamos pelos que soluçam de fome, mas roguemos amor para os que furtam o pão.
Elevemos nossos pensamentos ao Senhor Todo Bondoso...
-  e não entreguemos a Ele os que sangram de angústia, mas sim os que golpeiam e ferem.
- não peçamos pelos que sofrem injustiças, mas roguemos por aqueles que são empreiteiros do crime.
- não apresentemos a Ele os desprotegidos da sorte, mas roguemos Seu amparo aos que estendem a aflição e a miséria.
- não imploremos o favor de Deus para as almas traídas, mas supliquemos o socorro para os que tecem os fios envenenados da ingratidão.
Ergamos nossas súplicas ao Pai compassivo para que Ele estenda suas mãos sobre os que vagueiam nas trevas...
E roguemos a Ele que anule o pensamento insensato; que cerre os lábios que induzem à tentação; que paralise os braços que apedrejam e que detenha os passos de quem distribui a morte.
Rogamos, em verdade, Senhor, por todos nós, os filhos do erro, porque somente assim, Pai de Misericórdia, poderemos construir o paraíso do Bem com todos aqueles que já O compreendem e obedecem a Suas leis eternas, porque justas e verdadeiras, a fim de que se extinga o inferno daqueles que, como nós, se atiram desprevenidos aos loucos redemoinhos do mal”. 
Que o Mestre Jesus nos guarde nas decisões acertadas e nos inspire para que continuemos lutando na melhoria de nós próprios.

Bibliografia:
1 – PAULO, I Timóteo, 2:2.
2 – EMMANUEL (Espírito) – Palavras de Vida Eterna. [psicografado por] F. C. Xavier, 20ª ed., Edições CEC, UBERABA/MG - Lição 39.
3 –Idem – Lição 40
Para reflexão:

KARDEC, Allan - O Evangelho segundo o Espiritismo – capítulo XVI.

Não vim para batizar....

Por: Leda Maria Flaborea
Batismo é a prática dos ensinamentos do Cristo, fé em Deus e trabalho no bem.
Nos vários departamentos da atividade cristã, em todos os tempos, surgem controvérsias no que se refere aos problemas do batismo na fé...  A sua origem está nas práticas dos povos ditos pagãos. Entretanto, ele se modifica no seu conceito, após Jesus: antes d`Ele, o batismo era feito com água e, depois d`Ele, com fogo.  Os homens batizando na carne, Jesus no Espírito.
Irmãos nossos de outras crenças, cristãos ou não, têm em suas práticas o uso da água como purificação espiritual. O sacerdócio criou, para isso, cerimoniais e sacramentos. Assim, há batismos de recém-nascidos, há batismos de pessoas adultas, dependendo da crença que envolva as instituições. Sem desmerecer seus ritos, é necessário, todavia, que o examinemos à luz da Doutrina Espírita. Todo aquele que crê em Deus e aceita os ensinamentos do Mestre Jesus, poderia analisar melhor esse assunto através da lógica. É importante nos lembrarmos desse procedimento, porque a renovação espiritual não se verificará somente por práticas externas, nesta ou naquela idade física.   Determinadas cerimônias materiais, nesse sentido, segundo nosso estimado benfeitor espiritual Emmanuel, eram compreensíveis nas épocas em que foram empregadas.
Paulo deixou claro que o batismo como era realizado à época de Jesus não era mais importante que a divulgação, o ensino e a prática das luzes que Ele deixou. E o apóstolo assim dizia, porque sabia que o ponto alto de sua missão era a evangelização das massas e não o batismo como era prática comum entre os profetas e os apóstolos, daí a sua assertiva em uma carta aos coríntios, (1:14 a 17): “(...) porque o Cristo me enviou não para batizar, mas para evangelizar”.
Evangelizar, então, segundo Paulo de Tarso, (São Paulo para os irmãos de outros credos cristãos), é levar àqueles que não sabem os ensinamentos de Jesus, ajudando-os a vivenciá-los, como forma de elevação espiritual e aperfeiçoamento moral.
Sabemos que nos anos iniciais da escola humana, mais precisamente na instrução infantil, os pequenos precisam da colaboração de figuras, de objetos, de tudo que seja concreto, coisas adequadas ao seu entendimento, para que possam atravessar as portas iniciais do conhecimento e avançar até estudos mais complexos, o que vai exigir, mais adiante, maiores elaborações do pensamento.
Todavia, em relação ao ensino do Evangelho, ele próprio não deixa dúvidas, pois faz imensa luz. E é em Atos, (19:5), que encontramos a conclusão: “(...) E os que ouviram foram batizados em nome de Jesus”.  Aí está o batismo de fogo: o convite do Excelso amigo à renovação, à transformação dos nossos sentimentos e nossos pensamentos, que demandará de cada um de nós atitudes de renúncia e sacrifícios, esforços e determinação...  É o convite para “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”, tão difícil de ser realizado, pois ainda estamos presos às raízes do egoísmo, do orgulho desmedido, do olhar para si mesmo e imaginar que somos o centro do mundo.
A proposta de Jesus a uma mudança na nossa forma de olhar o outro coloca-nos em situação de igualdade, irmanados nas mesmas dificuldades, pois, ao conseguirmos enxergar mais o outro do que a nós mesmos, atendendo ao convite bendito do Mestre de amor e bondade, teremos sido batizados em nome d`Ele... Aí reside a sublime verdade. “A bendita renovação da alma àqueles que ouviram os ensinamentos do Mestre Divino, exercitando-lhes as práticas. Muitos recebem notícias do evangelho todos os dias, mas somente os que ouvem estarão transformados”, afirma Emmanuel com muita propriedade, no livro Vinha de Luz, na lição 158.
Sob essa luz, parece-nos possível concluir que, para o Espiritismo, batismo é a prática dos ensinamentos do Cristo, através do exemplo vivido com resignação, fé na Providência Divina e trabalho no bem.
As nossas transgressões às leis divinas podem ser remidas através do batismo de fogo da expiação que elas suscitam. Provações e expiações terrenas são, portanto, formas de batismo; e quando tivermos triunfado sobre elas teremos sido batizados, mais uma vez, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec escreve, por causa da intensa perseguição que a Doutrina Espírita sofria no seu início, o seguinte comentário, lembrando outra forma de batismo: “(...) A perseguição é o batismo de toda ideia nova, grande e justa, e cresce com a magnitude e a importância da ideia”.  Foi assim com Jesus; é assim com o Espiritismo!
Na concepção espírita do pecado original, posto que ninguém será responsabilizado pelo erro que o outro cometeu, o batismo deve ser encarado como uma cerimônia iniciática ou de consagração à crença que o postulante abraça. Como espíritas, entretanto, devemos entender, segundo revelação dos Espíritos Iluminados, que o verdadeiro batismo da criança se processa através da educação. O Espiritismo educa o homem para a vida em sociedade, e prepara-o para a caminhada em direção a Deus.  E como espíritas, na sagrada missão de paternidade, compreender que o batismo, aludido no Evangelho, é a solicitação das bênçãos divinas para todos aqueles que venham a se reunir no instituto da família.
Longe de quaisquer cerimônias de natureza religiosa, o espírita deve entender o batismo como o apelo do seu coração ao Pai de Misericórdia, para que os seus esforços sejam santificados no trabalho de conduzir as almas que lhes são confiadas, compreendendo, além disso, que esse ato de amor e compromisso divino deve ser continuado por toda a vida, na renúncia e no sacrifício, em favor da perfeita cristianização dos filhos, sob o pálio do trabalho, da dedicação. Assim afirma Emmanuel, respondendo a questão 298, do livro O consolador, psicografado pelo saudoso Francisco Cândido Xavier.
E é, ainda, no prefácio do livro No Mundo Maior, de André Luiz, também chegado a nós pela abençoada mediunidade de Chico Xavier, que Emmanuel deixa registrada uma frase de grande alerta para todos nós. Diz ele, textualmente: “O batismo simbólico ou o tardio arrependimento no leito de morte não bastam para garantir o futuro espiritual de ninguém. Se a mera arte humana exige a paciência dos anos para se chegar ao seu término, que dizer da obra sublime do aperfeiçoamento da alma, destinada a glórias indescritíveis”.
A generosa pedagogia de Jesus continua a propor, até hoje, que se busque o Reino de Deus, entendendo a expressão como a espiritualidade que devemos conquistar, conscientes de que ninguém a logrará à custa de rituais externos, por mais honestos que sejam, que não impliquem a mobilização de nossas forças intelectuais, morais e às vezes físicas.
O que nos parece verdadeiro é que cada movimento que fazemos na busca de solucionar nossas dificuldades, com dignidade, honestidade, com fé em Deus e em nós mesmos; cada luta que travamos conosco, no nosso íntimo, procurando ser criaturas melhores todos os dias; cada pequeno sucesso de superação das nossas imperfeições morais mostra que estamos no caminho certo. Caminho de luz, de harmonia dentro e fora de nós, de profundo agradecimento ao Pai Misericordioso pelas oportunidades que nos dá de sermos todos os dias batizados em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. 
                                                                      
Bibliografia:
GODOY, Paulo Alves. O Evangelho Pede Licença, 3ª ed., Edições FEESP – S. Paulo/SP - “Não vim para batizar” – 1997 – p. 145.
SCHUTEL, Cairbar. O Batismo, Editora Casa O Clarim – MATÃO/SP.
EMMANUEL (Espírito). Caminho, Verdade e Vida, [psicografado por] F. C. Xavier – 20 ed., CEC, 1995, lição 158.

PAULO – I CORÍNTIOS, 1: 14-19. 

Ouvidos de ouvir

       
   Por: Leda Maria Flaborea
Irmão X, através da psicografia de Francisco Cândido Xavier, narra um fato ao qual deu o título de Os Três Crivos. Conta-nos ele que certo homem aproximou-se de Sócrates, dizendo ter algo grave a lhe contar. O prudente sábio perguntou ao interlocutor se já havia passado o assunto pelos três crivos. “Quais crivos?”, perguntou espantado o homem. “Primeiro”, disse o filósofo, “o crivo da verdade: tem certeza da veracidade do quer comunicar?” O interlocutor disse que não, pois só ouvira dizer. Sócrates continuou perguntando se ele já havia passado o assunto pelo crivo da bondade e o homem negou argumentando que de bom nada havia. Diante disso, o sábio recorreu ao terceiro crivo, o da utilidade e, prontamente, o interlocutor disse que de útil, também, nada havia. “Bem, rematou o filósofo num sorriso, se o que tens a confiar não é verdadeiro, nem bom e nem útil, esqueçamos o problema e não te preocupes com ele, já que nada valem casos sem edificação para nós”... 
Nessa pequena história, parece-nos muito claro o ensinamento de Jesus: “Quem tem ouvidos de ouvir, ouça”. Todos, indistintamente, aguardamos ouvir os chamamentos de Jesus. Esperamos que vozes celestiais nos cheguem aos ouvidos convocando-nos para, em nome do Mestre, realizarmos grandes obras. É justo esperar, mas será que não precisaríamos antes melhorar nossa audição para ouvir os chamamentos? 
Emmanuel, na lição 72 do livro Palavras de Vida Eterna, nos lembra que analisar, refletir e ponderar são modalidades do ato de ouvir, pois que necessitamos estar atentos e dispostos a identificar o sentimento das vozes, bem como as sugestões e situações que as rodeiam. Mas, por que precisamos ter esse cuidado? Porque somente após aprendermos a ouvir com atenção, analisar o que se ouviu, a refletir sobre as palavras ditas, os sentimentos que as moveram e a ponderar sobre a sua utilidade - para o nosso crescimento e o dos outros - é que poderemos falar de modo edificante na estrada evolutiva que ora trilhamos. 
O Orientador Espiritual nos lembra que quem ouve, aprende, e quem fala, doutrina. O primeiro, retém, e o segundo, espalha, e somente aquele que guarda, na experiência que renova, pode espalhar com êxito. Todos nós, em experiência planetária, nascemos com uma função definida, pouco importando que seja simples ou complexa. Para Deus, qualquer que seja sua importância, estará sempre ligada à nossa necessidade individual de aprimoramento. Nós, por não entendermos os desígnios divinos, é que não aceitamos essa condição. Julgamo-nos merecedores de tarefas mais importantes, de maior destaque, sem nos atermos ao fato de que, muitas vezes, sequer conseguimos realizar as pequenas tarefas diárias que nos são confiadas, ou pelas quais nos responsabilizamos. Apenas falando pode ser que abandonemos o trabalho no meio. Entretanto, se começarmos realmente a ouvir sempre e mais, com certeza, atingiremos, e de forma serena, os fins aos quais nos destinamos. 
Quando falamos em ouvir os chamamentos de Jesus é necessário nos lembrarmos do seguinte: no Cristianismo, o chamamento do Mestre tem um significado bem específico, ou seja, o apelo do Cristo ao ministério religioso. Todavia, à luz do Espiritismo, ele é muito mais amplo, pois que, em cada situação da nossa existência, estejamos encarnados ou desencarnados, podemos registrá-los. Senão, vejamos: no seio familiar ele surge através dos problemas difíceis que necessitamos solucionar, após ouvir, com serenidade e isenção de ânimos, as partes envolvidas; diante do companheiro desconhecido que nos solicita cooperação; à frente do adversário que pede tolerância e entendimento, nos conclamando ao perdão com o esquecimento do ato ofensivo; junto ao enfermo a nos solicitar a assistência amorosa, seja no trato das feridas físicas ou espirituais; e na atitude de bondade e compreensão que nos roga a criança, exigindo de nós cuidados maiores diante da fragilidade dessa planta que necessita das mãos fortes do adulto para não fenecer. 
Somos todos discípulos de Jesus, precisando ouvi-Lo, dando testemunhos da nossa fidelidade aos ensinamentos que deixou,  procurando segui-Lo onde estejamos e como estejamos, na certeza de que, somente através do exercício constante no bem, estaremos atendendo ao chamamento do Divino Amigo, porque teremos então ouvidos de ouvir.

Referências:
Emmanuel (Espírito). Palavras de Vida Eterna – [psicografado por] Francisco Cândido Xavier – 20ª ed., Edição CEC – UBERABA/MG - lições 72,87 e 95.
Fonte Viva – [psicografado por] F.C.Xavier – 16ª ed., FEB – RIO DE JANEIRO/RJ - lições 32 e 153.
Caminho, Verdade e Vida – [psicografado por] F.C.Xavier – 17ª ed., FEB – RIO DE JANEIRO/RJ - lição 77.
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Laços de família

Por: Leda Maria Flaborea
Os laços familiares não são obras do acaso. São o cumprimento da Lei de Causa e Efeito, que representa o dever da responsabilidade que temos sobre nossa conduta, seja através de atos, palavras ou pensamentos, que une esses seres no presente impelidos pelas causas do passado. Por essa razão, temos famílias nas quais vige o desentendimento entre seus membros, famílias em que a harmonia impera entre seus membros e famílias em que existe, às vezes, um indivíduo que destoa dos demais membros.
Com vistas à Lei do Progresso – da qual nada nem ninguém escapa – os seres se reúnem para saldarem as dívidas de uns para com os outros. Muitas vezes, tentamos fugir desses débitos, mas não adianta, porque seremos sempre constrangidos a liquidá-los com nossos credores. Mais cedo ou mais tarde, estaremos juntos a eles no cumprimento dos desígnios divinos.
Por esse motivo, a equipe familiar, no mundo, nem sempre é um jardim florido. Na maioria das vezes, é um espinheiro de preocupações e de angústias que exige, de cada um de nós, um grande número de renúncias e sacrifícios, que nem sempre estamos dispostos a fazer. Então, mais uma vez, é preciso lembrar que seremos chamados a prestar contas das nossas atitudes despóticas dentro do lar, da nossa intolerância, da nossa negligência para com os seres que foram colocados ao nosso lado, da nossa intransigência em não aceitar as diferenças nas formas de pensar e agir, numa guerra psicológica surda, que pode ter consequências dolosas para os seres mais frágeis que compõem o grupo familiar e a quem deveríamos dar proteção. Seremos, sim, chamados a responder pelo que fizermos aos nossos filhos, aos nossos pais, aos nossos companheiros de jornada.
Todos os parentes, sejam eles consanguíneos ou afins, começando pelos nossos pais, são obras de amor que Deus nos deu a realizar. É preciso ajudá-los, amparando-os, através da cooperação, do carinho, atendendo aos desígnios da fraternidade, lembrando que a caridade começa em nosso lar. Nossos pais, por exemplo. A lei humana exige – sob pena de responsabilidade penal – que eles sejam assistidos em suas necessidades, sobretudo se impedidos de conseguir seu próprio sustento. E o que fazemos? Nós os colocamos nos menores quartos, dando somente e estritamente o necessário, sem nos lembrarmos dos pequenos gestos, que tanto aquecem o coração. Isso quando não os forçamos a trabalhos domésticos, como forma de pagamento por aquilo que lhes é de direito − nosso dever de cuidado.
Mas, a lei moral que nos alcança, além da lei humana, orienta-nos – sob pena de sermos chamados à responsabilidade diante das Leis Divinas – a cuidar deles em atenção às suas necessidades, inclusive, e, principalmente, as afetivas.
A Instrutora Espiritual Joanna de Ângelis lembra esse nosso dever com a seguinte frase: “não percas a oportunidade de semear dentro de casa”, porque ela é a primeira escola de amor onde somos colocados para aprender a amar.
Um exemplo que podemos destacar são os déspotas domésticos: pessoas dóceis fora de casa e que criam o terror dentro dela, fazendo com que sejam temidos por criaturas que deveriam amá-los. Tristes figuras essas que dizem orgulhosos: “em casa sou obedecido, porque todos me temem”, porque poderiam acrescentar a essa frase: “e também sou odiado”.
O lar é uma praia estreita que nos dá condição, através das vivências que ali experimentamos, de servirmos com êxito – no futuro - no mar alto das grandes experiências. É preciso aprender no pouco para experimentar no muito com maior segurança.
Assim, o exemplo que cada um de nós dá no ambiente doméstico passa a ser o adubo que vai propiciar o desenvolvimento de valores positivos ou negativos nesse meio, fortalecendo ou não atitudes que poderão, mais tarde, comprometer, diante das Leis de Deus, o processo evolutivo dos Espíritos envolvidos nesse processo de reajuste reencarnatório. Sob esse prisma, podemos entender, então: 1 – que uma família não se mede pelo número de membros que a compõe ou pelo tempo que essas pessoas passam juntas; 2 – que não é um ato religioso ou civil que forma uma família, mas o sentimento que une essas pessoas e que dá sentido à palavra família.
Desse modo, cabe uma pergunta que Kardec fez aos Espíritos superiores: “A família acaba com o desencarne de seus componentes?” E os Benfeitores responderam que quando o sentimento que une essas pessoas é verdadeiro, baseado no amor, no respeito, no companheirismo de uns para com os outros, ela sobreviverá além da vida material. Esses laços são fortes e mais se consolidam no plano espiritual. Encontram-se lá e reúnem-se de novo para outras tarefas na vida material. Temos aí as famílias harmoniosas.
Agora, quando os sentimentos são de ordem puramente material, baseados no egoísmo e no orgulho, nas ilusões de nomes ilustres, de cargos, fortunas ou beleza física, o desencarne, às vezes, apenas de um dos seus membros, romperá esses laços e a família desaparecerá. Não mais se encontrarão na vida espiritual como tal, mas deverão reencontrar-se em novas existências para saldarem os débitos contraídos uns com os outros. É isso que explica a existência de famílias em desequilíbrio, em constante desarmonia, em eternas cobranças.
Por essa razão, a advertência de Jesus ainda é muito preciosa: “Ama o teu próximo como a ti mesmo”. Inicia, dentro do lar, o plantio de amor que irá converter-se em colheita farta de bons frutos.

------------- Bibliografia: KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo O Espiritismo, Cap. 14.
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A felicidade está em nós

Na questão 920 do O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta aos Espíritos Superiores se o homem pode gozar, sobre a Terra, de uma felicidade completa Respondem que, tendo em vista esse homem viver sobre o planeta em provas e expiações, depende dele amenizar seus males e ser tão feliz quanto se pode ser sobre a Terra, visto ser ele o artífice de sua própria infelicidade, uma vez desviado que se encontra da prática das leis de Deus. Conclui-se, portanto, que a felicidade plena, como tantos desejam, não é possível por ora. É sabido que vivemos cercados de problemas de toda ordem, mas também não ignoramos que essas atribulações são inerentes à própria vida, tendo em vista o grau evolutivo em que a humanidade terrena se encontra. Defrontamo-nos, assim, com problemas pessoais, profissionais e aqueles que envolvem a sociedade na qual estamos inseridos. Observamos que, independentemente de posição social, intelectual ou profissional, todos têm dificuldades pela existência na qual transitam. Muitas vezes, essa dificuldade não está no campo individual, mas surge quando nos relacionamos com o outro, situação inevitável de quem vive em sociedade – somos seres gregários por excelência. Outras vezes, a situação se inverte: o outro é que tem problemas no relacionamento conosco, apesar dos nossos esforços em diminuir os pontos de atrito – todo esforço para o estabelecimento da harmonia é salutar. Por conta de tantas situações de desajuste, ouvimos, freqüentemente, as pessoas dizerem que a felicidade não é deste mundo. O interessante é que, muitas vezes, são criaturas que têm a sua disposição todos os recursos que facilitam sua vida, ou seja, que não lhes trazem problemas de ordem material. Muitos que se dizem infelizes têm a juventude, ou a beleza, ou a fortuna e, às vezes, as três juntas, bens tão cobiçados pela maioria das pessoas. Diante dessa constatação, é importante perguntarmos: se a maioria das pessoas deseja esses bens e se muitas são infelizes, apesar de possuí-los, por que os desejam? O Evangelho nos lembra que ainda somos criaturas ligadas a tudo que é material e que poucos de nós buscam, verdadeiramente, libertarem-se dessas amarras. Felicidade e bens materiais caminham juntos, no nosso julgamento, ainda, tão estreito. Os que buscam essa libertação são aqueles que já compreenderam que, além do corpo físico, somos um ser espiritual, e isto representa uma vitória do Espírito sobre a matéria. E começam a entender que os valores materiais não são suficientes para preencher esse vazio que se forma em suas vidas, em um determinado momento. A beleza física já não faz sentido por ser apenas externa e como tudo o que a ela se assemelha, o tempo se encarrega de transformar. A fortuna já não compra mais o que realmente se necessita. A juventude, somente, já não representa mais a força necessária para se continuar caminhando com segurança. Em cada um desses elementos há um vazio que precisa ser preenchido. Então, o que falta? Falta o despertar para os verdadeiros valores. Falta acordar para os novos dias que estão se anunciando para nós. Falta a conscientização de que somos Espíritos em evolução, e não corpos que se deterioram com o tempo. Somos Espíritos imortais, habitando, temporariamente, corpos mortais, finitos. Como preencher esse vazio? O primeiro passo é a aceitação dessa nova realidade, com o entendimento e a coragem de voltar sobre os próprios passos e reiniciar a caminhada com novos propósitos e firmeza de decisão. É imprescindível abandonar os velhos valores que nada acrescentam em nossa vida e nem nos fazem criaturas melhores. É indiscutível negar que necessitamos buscar a fortuna da sabedoria, a juventude da esperança – força renovadora que nos impulsiona à frente, constantemente – e a beleza da prática do amor, pela caridade com o próximo e igualmente conosco. “a luz com a qual clareamos caminhos alheios é crédito perante a vida, entretanto, somente a luz que fazemos no íntimo nos pertence e é fonte de liberdade e equilíbrio, paz e riqueza na alma”.¹ Esse processo, nas palavras de Ermance Dufaux, exige tempo, disposição incansável de recomeçar, meditação, cultivo de novos hábitos, oração, renúncia, capacidade de sacrifício, vigilância mental, vontade ativa, disciplina sobre os desejos, diálogo fraternal, dever cumprido e amparo espiritual. E dizemos nós, não todos ao mesmo tempo e por isso mesmo o Criador nos concede a misericórdia de reencarnação. Muitos dizem que a felicidade não é desse mundo. Certamente que é! Não a felicidade plena, porque nossa existência nesse momento não comporta, mas é do mundo de luz que cada um cria dentro de si, na luta contra suas tendências inferiores que estão sempre nos afastando de Deus, e que tanto nos pesam. A felicidade é possível, sim, neste mundo. Não do mundo de necessidades fantasiosas, fictícias que criamos, mas do mundo do amor ao próximo pela tolerância, pela aceitação do outro como ele é, pela alegria de poder ser útil sem querer nada em troca, pelo cumprimento do dever realizado, sem levar em conta sua importância ou seu tamanho. E os Espíritos Superiores nos alertam para isso na questão 926 ³, dizendo que aquele que sabe limitar seus desejos e vê sem inveja os que estão acima de si, poupa-se de muitas decepções nesta vida. O mais rico, dizem textualmente, é aquele que tem menos necessidade. Somos os responsáveis pela construção desse novo mundo. Se erramos nas nossas escolhas o fizemos por desconhecimento de que havia outro caminho; mas, hoje, ao entendermos isso, nos colocamos em condição de aceitar o outro, pois sabemos que ele ignora hoje, o que desconhecíamos ontem. “A felicidade, tão procurada no mundo da transitoriedade, está em nós, no ato de penetrarmos na desconhecida gleba do eu, arando esse terreno fértil para que floresça a Divindade da qual somos todos portadores. Essa é a felicidade dos Espíritos Superiores, conforme assertiva da codificação; todavia, pode ser a nossa, ainda agora...” ¹ Sejamos, pois, os iniciadores dessa transformação, que atingirá todo planeta, tornando-nos um ponto de luz a espalhar o exemplo do amor por onde passarmos.

Bibliografia 
1 - Ermance Dufaux – Mereça Ser Feliz – [psicografado por] Wanderley S. de Oliveira, Editora INEDE, Belo Horizonte/MG,
2.ed.,2003, Capítulo 2. 2 – KARDEC, Allan – O Livro dos Espíritos – Livro IV, Capítulo I – Penas e Gozos Terrestres
3 - KARDEC, Allan – O Evangelho Segundo o Espiritismo – Cap. 5 – Bem –aventurados os Aflitos, item 20.
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