Judas e traições

“Não julgueis os outros para não serdes julgados, porque com o julgamento com que julgardes, sereis julgados e com a medida que medirdes, sereis medidos” Jesus (Mt, 7:1)

Recentemente, a imprensa mundial se ocupou com um assunto que mobiliza a cristandade desde os seus alicerces. O tema é Judas e sua traição...

Para nós, espíritas, que acreditamos na remissão dos erros como princípio básico do progresso, da reforma íntima e do envolvimento com o amor do Pai, o episódio não tem aquele aspecto da condenação eterna, ninguém pode ser condenado eternamente por um erro. Isso seria a negação da perfeição divina, que nos criou, a todos, para que venhamos a alcançar a paz e não as fogueiras infernais.

O anátema a Judas pode ser passível de alguns comentários:

- Seria possível enganar a Jesus e, com isso, existir um traidor entre seus apóstolos, que foram escolhidos criteriosamente para a divulgação da Boa Nova?

- Seria necessário que alguém beijasse a face do Cristo para o identificar aos seus algozes?

- Por que foi Judas o apontado como traidor?

O chamado Evangelho de Judas, apócrifo agora revelado, foi escrito no século IV ou V, na língua copta, baseado no original grego que teria sido escrito pelo próprio Judas, em seu retiro no deserto e que foi condenado por Irineu de Lyon no século II, assim como também foi condenada a seita dos gnósticos, conhecida como cainitas, que divulgou o documento (existem versões de que o texto foi escrito pelo gnósticos, como se fora o próprio Judas). Nesse texto apócrifo, Judas não se reconhece como traidor. Teria sido apenas um instrumento dos desígnios superiores para que o Filho de Deus sofresse o martírio e “salvasse os homens”. Conta que não se enforcou, foi perdoado por Jesus e orientado para se retirar e fazer exercícios espirituais no deserto.

Podemos ir para os comentários acima colocados.

Ao conhecermos, ou pelo menos vislumbrarmos, a hierarquia espiritual de Jesus, não pode haver dúvida quanto ao fato Dele ser enganado. Isso não seria possível, mesmo porque, em Mateus, na cena da Santa Ceia, Jesus avisa que um apóstolo o entregará; esse mesmo fato é relatado de outra forma em Marcos, embora ele relate a advertência de Jesus. Também diz que Judas foi escolhido pelo Mestre, para integrar-se ao grupo; considerando-se o que escrevem Marcos e Mateus, Lucas não atribui responsabilidade a Judas pelo desfecho do Calvário, embora também registre o alerta feito na Santa Ceia; mas em João, existe um contundente testemunho, quando ele relata a cena da Santa Ceia, onde Jesus teria, não só dito que um apóstolo o trairia, como informou que seria aquele a quem Ele desse um pão molhado, que é oferecido a Judas e incentiva o apóstolo: - O que tens a fazer, faze-o depressa. Não, o Cristo sabia quem era Judas e certamente sabia o que iria acontecer.

Desde o nascimento de Jesus, quando foi realizado o censo na região, tanto os romanos, quanto os hebreus, sabiam quem era quem, mesmo porque a população não era tão grande assim. Além disso, o processo peripatético que caracterizou o magistério de Jesus, o tornou conhecido de todos, inclusive do Sinédrio, onde teve oportunidade de debater vários temas com os doutores do templo. Entre os romanos, era jocosamente chamado “Rex Iudeorum” – Rei dos Judeus...

Será que para ser reconhecido por seus captores, haveria necessidade de uma indicação tão óbvia, como um beijo na face?

Mas quem era Judas? Para ser escolhido como apóstolo, deveria ser uma pessoa com destaques pessoais adequados para a obra cristã.

As informações arqueológicas o mostram como um adversário dos romanos, ligado a correntes nacionalistas que pretendiam a liberdade do jugo de César.

No livro Crônicas de Além Túmulo, da excelente lavra de Humberto de Campos (Espírito), vamos encontrar uma entrevista que o autor fez com o Espírito Judas, onde são mostrados ângulos muito interessantes dos fatos ocorridos na época.

Judas queria a liberdade do povo hebreu. Não via, porém, em Jesus, o perfil do líder que iria impor, com audácia e força, uma nova ordem e quis, desse modo, planejar uma revolta que utilizasse o carisma do Mestre, como catalizador da ação do povo.

Ser apóstolo era uma demanda por ele solicitada, quando ainda estava no plano espiritual, antes de reencarnar. No livro Pérolas do Além, Emmanuel cita que Judas deveria amar profundamente a Jesus, mas, tão só pela pressa em alcançar a vitória, engendrou a tragédia da cruz, levado pela invigilância.

Ainda no livro Crônicas de Além Túmulo, vemos que o apóstolo, por amor ao Nazareno, não deve ter imaginado sua crucificação e sofrimento. Contava com uma sublevação tão logo o povo soubesse da captura e os romanos nada poderiam fazer.

Mas Pôncio Pilatos entregou Jesus ao julgamento dos judeus, seu povo. Com isso, a revolta ficou abortada, não estava presente o dominador romano para atrair os ódios.

Dessa forma, deu-se a seqüência do julgamento e da sentença no Gólgota.

À luz da conceituação espírita, a razão, esse privilégio divino, nos faz pensar que nada do que aconteceu pode ser ligado ao determinismo, fatalismo ou qualquer outro item circunstancial. Os fatos, dada a sua importância para a história da humanidade, não poderiam deixar de ter sido objeto de um planejamento milenar e, nesse contexto, Judas foi coadjuvante, não protagonista.

A tragédia do Gólgota foi palco da demonstração de todas as qualidades e defeitos humanos, das paixões, dos interesses, do egoísmo, da calúnia... Todos com seus personagens e Judas, foi o personagem da traição. A maior demonstração foi a de Jesus, que do alto da cruz, pediu a Deus que perdoasse a todos, eram ignorantes, não sabiam o que estavam fazendo.

Diante disso, não se pode deixar de pensar que, diante do que está nas escrituras, a trama humana influenciou a história, atendendo a propósitos menores.

Nem os que condenaram o Mestre ao suplício da cruz, tiveram uma execração milenar, como teve Judas. Ele não foi perdoado pelos homens, embora o Cristo tivesse pedido a Deus que perdoasse a todos.

Um fato relevante foi lembrado pelo teólogo Fernando Altemeyer, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, “... A atitude do apóstolo traidor não foi muito pior do que a de Pedro, que O negou por três vezes, ou que a dos demais apóstolos, que O abandonaram. Judas foi um mal necessário, um inocente útil.”

As crônicas espirituais mostram um Judas ansioso por reverter o quadro de traidor que o impuseram.

Ao longo da história cristã, Judas voltou prestando serviços importantes para a causa do Cristo e hoje, já com seu histórico resgatado, fica bem longe dos pensamentos deletérios dos cristãos menores, que ainda não aprenderam a respeitar e entender a Paz e o Perdão que Jesus ensinou.

3 comentários:

Anônimo disse...

Depois de 200o anos ainda não consequimos perdoar. E tratamos o irmão Judas como o maior pedador da humanidade.
Pergunto: e nós que vendemos todos os dias o Cristo, quer através do dízimo ou por presentes, mormente na época do natal.

Gabriel disse...

Somos muito precipitados, não sabemos se quer a história verdadeira de Judas, quanto mais a julgalo por algo que se passou a mais de 2000 anos !
Na verdade, há uma teoria recente que diz que judas fez a vontade de Jesus, que tinha que tornar real a professia, e eu particularmente acredito nessa teoria pois é um fato muito mais lógico e compreensivel, pois se Judas era mesmo o apostolo preferido de Jesus, entao porque trailo? Eu recomendo que olhem o filme Codigo Da Vinci, é realmente muito bom.
Mas gostaria de saber sobre suposta 'apariçao' de Maria Madalena no quadro da Santa Ceia e também sobre o oculto Santo Graal, que sao teorias relatadas no filme e que realmente nos deicham entrigados.

Arlindo disse...

Sera difícil entender que mais exemplo que o mestre nos mostrou, atraves de suas vivencias, ainda existem, e como existe, pessoas que acham que o perdão não existe.